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segunda-feira, 22 de agosto de 2011
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Uma nova espécie de predador triássico do Rio Grande do Sul
Por Marco Aurélio de Gallo França
O Achado:
No início do ano de 2001, paleontólogos do Museu de
Ciências Naturais da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (MCN/FZB-RS) - Dr.
Jorge Ferigolo, Dra. Ana Maria Ribeiro e Dr. Ricardo Negri - com o apoio
financeiro do projeto Pró-Guaíba/BID, saíram em uma viagem de campo atrás de
sítios paleontológicos gaúchos que afloram rochas triássicas (período entre 245
e 205 milhões de anos atrás). Dentro da rota planejada para a viagem estava o
afloramento informalmente denominado de “posto”, pois o mesmo se encontra na
entrada da cidade de Dona Francisca, região central do Rio Grande do Sul, logo
atrás de um posto de gasolina que beira a estrada.
Após algum tempo de caminhada pelo afloramento, de
levanta e agacha pra ver se o que tem ali no chão é rocha, lixo ou fóssil, o
Jorge encontra alguma coisa que parecia interessante: “Ana, achei uma coisa
aqui que parece um crânio!!!”. Por ele ser um tanto brincalhão, ela duvidou
logo de cara. Mas após ir até o local, ambos confirmaram se tratar de um
crânio, e não pequeno (cerca de 30 cm de comprimento). Aí começava o que todo
paleontólogo faz quando encontra alguma coisa: escavar em volta pra ver se tem
mais fóssil preservado. E... não é que tinha!!! E não era pouca coisa não!
Mesmo no campo, coberto por sedimento, com a terra meio úmida, logo os
paleontólogos conseguiram identificar que o crânio estava conectado à um
pescoço... e este à uma cintura pélvica (bacia)... e esta numa cauda... e este
indivíduo quase completo estava com mais outros crânios e esqueletos!
Se achar um pedacinho quebrado pra nós paleontólogos
já é algo interessante, imagine o quão sensacional é achar um crânio e perceber
que existe mais coisa ainda ali junto! Passado a euforia, vem a parte chata e
braçal: tirar o fóssil do afloramento para levá-lo ao laboratório aonde será
preparado e estudado. Querendo preservar o material como estava no campo para
extrair mais dados de como os animais teriam morrido, eles fizeram um bloco
gigantesco, cerca de 6 metros quadrados e pesando em torno de meia tonelada.
Infelizmente, o bloco não agüentou... muito também por causa da chuva que
acompanhava os paleontólogos durante a extração do bloco. Sendo assim, o
material foi levado em partes para o Laboratório de Paleontologia da FZB. Lá, o
Negri começou a montar as partes do bloco e preparar o material durante seis
meses. Após isto, o material ficou por algum tempo sem ninguém estudá-lo ou
prepará-lo.
A Pesquisa:
Em 2007, outras pessoas entram na história. Numa ligação para o Jorge,
Max diz ter um aluno que tinha acabado o mestrado, Marco (no caso, eu), e ele
precisava de algum material fóssil para fazer seu doutorado. Acordos feitos,
Marco começa seus estudos com este material. Já possuía alguma experiência em
preparação e julgou que seria fácil preparar este material. Ledo engano... Na
primeira visita à capital gaúcha, já viu que o trabalho de preparação ia ser
difícil: o material era envolto por uma concreção férrica muito dura. Como o
material fóssil preservado é frágil, esta concreção em volta torna a preparação
muito difícil e demorada. Imagine que você tenha que tirar o grafite de dentro
de um lápis, mas ao invés de uma madeira mole e fácil de ser removida, este
lápis esteja envolto por um material muito mais duro, como um tubo de PVC.
Estilete, agulha, ponteira... nada disso sequer riscava a concreção. Começou-se
a usar, então, canetas pneumáticas [http://www.paleotools.com/products.html]. O que é isto? São instrumentos
muito parecidos com aquele motorzinho de dentista que se usa pra furar o dente
e extrais a cárie, mas ao invés de movimentos rotatórios, as canetas que se
usam na paleontologia realizam movimentos “pra frente e pra trás”. Mesmo assim,
o material era difícil de ser preparado. Havia dias que após 8 horas de
preparação, uma área “imensa” menor que uma moeda de um centavo era
preparado!!! E não era só isso. Estas canetas pneumáticas possuem tamanhos e
intensidades diferentes. Começou com uma de nível 1... ponteira quebrada. Nível
2... ponteira quebrada. Nível 3... ponta gasta em menos de um dia de trabalho.
Nível 4, usado em materiais grandes, como fêmur de titanossauro... começou a
funcionar. Só que as ponteiras duravam cerca de 15 dias e tinha o risco de quebrar
todo o material por conta do alto impacto, isso sem dizer que cada ponteira
desta custa cerca de 60 dólares!
Durante três anos e
meio, os fósseis iam sendo preparados e estudados concomitantemente. Até que no
final do ano passado, com dados suficientes já em mão, os paleontólogos decidem
publicar um artigo com os resultados deste trabalho (França et al., 2011). O material achado se
tratava de 9 indivíduos amontoados uns sobres os outros, com três crânio bem
preservados, e, à priori, todos pertencentes à uma nova espécie: Decuriasuchus quartacolonia.
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| FIGURA 3 – Crânios preservados de Decuriasuchus quartacolonia. Dois crânios foram preservados sobrepostos (acima) e o outro um pouco mais isolado (abaixo). |
Os animais desta espécie eram carnívoros (possuíam dentes pontiagudos
com margens serrilhadas), quadrúpedes e mediam cerca de 2,5 metros de
comprimento.
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| FIGURA 4 – Reconstituição de Decuriasuchus quartacolonia. |
Faziam parte um grupo chamado Rauisuchia. O que é isto? Hein?? Senta que
lá vem a sistemática... Entre todos os animais vivos atualmente, aves e
crocodilos são os mais aparentados entre si, formando um grupo denominado de
Archosauria. Estes dois grupos atuais são somente um resquício da
Biodiversidade do passado (clichê paleontológico! Hehehe). Os arcossauros se
diversificaram durante o período triássico em duas grandes linhagens (Brusatte et al., 2010): uma pró-aviana,
denominada de Ornithosuchia e da qual faz parte também os dinossauros (sim, ave
é um dinossauro!!!); e outra pró-crocodiliana, denominada de Pseudosuchia e da
qual faz parte vários grupos fósseis que se extinguiram no final do período
triássico, sendo os crocodilomorfos os únicos sobreviventes. Destes grupos que
se extinguiram estão os fitossauros (arcossauros aquáticos, com focinhos
alongados), aetossauros (arcossauros encouraçados, possuindo placas ósseas de
formatos diversos em suas costas), os ornitossuquídeos (arcossauros com crânios
esquisitos, com a mandíbula reduzida em comprimento e a ponta do focinho
voltada pra baixo) e os rauissúquios, ou Rauisuchia, do qual esta nova espécie
faz parte.
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| FIGURA 5 – Cladograma representando o parentesco entre os grupos de Archosauria. |
Este grupo era considerado até a década de 90 composto por grandes
predadores topo de cadeia, quadrúpedes e que tinham morfologia distinta da
bacia que permitia uma locomoção mais rápida. Entre os maiores da sua época nos
ecossistemas terrestres, podiam medir até 9 metros de comprimento. Existe um
crânio na UFRGS de aproximadamente um metro de comprimento, pertencente à
espécie Prestosuchus chiniquensis (Barberena, 1978). Durante
a década de 90, pesquisadores encontraram animais deste grupo que são bípedes,
desprovidos de dentes e provavelmente portando bicos córneos, como nas
tartarugas, como Effigia okeeffeae (Nesbitt & Norell, 2006) e
Shuvosaurus inexpectatus (Chatterjee, 1993). Mais recentemente, há indícios
fortes de que uma das espécies, Qianosuchus
mixtus (Li et al., 2006), possuía hábito aquático. Ou seja, Rauisuchia
representa um grupo muito mais diverso do que se aparentava até então.
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| FIGURA 6 – Exemplos de espécies de Rauisuchia, apresentando a diversidade de tamanho e hábitos. |
Entre estas novidades está Decuriasuchus. Foram encontrados 10 indivíduos naquele afloramento
no município de Dona Francisca, sendo que 9 deles estavam praticamente uns
sobre os outros. Como seus esqueletos estão praticamente articulados, pode-se
afirmar que eles estavam próximos uns dos outros antes de suas mortes,
demonstrando um comportamento social mais desenvolvido do que se pensava: grandes
répteis predadores tendem a viverem de forma mais isolada e não em
“comunidade”. Este aglomeração de indivíduos pode ter causa e consequências
diversas. Estudos apontam que aquela região no triássico era uma planície de
inundação, com períodos de secas drásticas e outros de chuvas intensas (Da
Rosa, 2005), o que pode ter servido de “refúgio” para estes animais.
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| FIGURA 7 – Imagem de uma planície de inundação atual com paisagem similar à considerada para a localidade aonde Decuriasuchus foi coletado. |
É comum espécies de animais predadores de porte menor,
caso do dinossauro Velociraptor,
viverem em bando para defesa de predadores maiores ou ainda para caçar em
bandos, o que poderia ter acontecido com Decuriasuchus.
A verdade é que a resposta dos porquês destes indivíduos estarem juntos é pura
especulação, mas é fato que eles viviam próximos uns dos outros. Paralelamente,
outros aglomerados da mesma espécie em arcossauros, embora raros, são mais
comum em dinossauros jurássico, sendo um comportamento social desenvolvido
descrito em vários grupos de dinossauros. No período triássico, afloramentos
possuindo vários indivíduos da mesma espécie são mais escassos, sendo descritos
em dinossauro terópode Coelophysis bauri
do novo México, EUA (Schwartz & Gillette, 1994), em dinossauro
sauropodomorfo basal Plateosaurus da
europa central (Sander, 1992), e no pseudossúquio Aetosaurus ferratus da Alemanha (Schoch, 2007). Todos estes são
datados do Triássico Superior (Noriano-Rhaetiano, aproximadamente entre 220 e
205 milhões de anos atrás). As rochas do afloramento “posto”, aonde foram
encontrados Decuriasuchus, são de
aproximadamente 235-240 milhões de anos atrás, podendo-se dizer que esta nova
espécie é o registro mais antigo de comportamento gregário em arcossauros.
Sobre o nome desta nova
espécie, há algumas curiosidades. Decuria/suchus: o termo “decuria” faz
referência à unidade do exército romano constituída por 10 soldados, como no
caso dos 10 indivíduos achados no afloramento e também em referência à uma
estrutura protuberante que existe no osso Nasal compartilhado por algumas
espécies do grupo Rauisuchia que foi descrito por Romer (1971) como sendo o
focinho tipo nariz romano; já “suchus” é um termo grego que se refere ao deus
egípcio com cabeça de crocodilo, fazendo referência ao posicionamento da
espécie na linhagem pró-crocodiliana. O nome específico “quartacolonia”
refere-se à região no interior do estado do Rio Grande denominada de Quarta
Colônia por ser a quarta região à abrigar os imigrantes italianos no século
passado e da qual faz parte o município de Dona Francisca, aonde foram
coletados os fósseis.
Citações Bibliográficas:
Barberena, M. C. 1978. A huge thecodont skull from the Triassic of
Brazil. Pesquisas, 7,
111–129.
Brusatte S, Benton
MJ, Desojo J, Langer MC (2010) The higher-level phylogeny of Archosauria
(Tetrapoda: Diapsida). J Syst Paleontol 8:3–47.
Chatterjee, S. 1993. Shuvosaurus, a new theropod. National
Geographic Research and Exploration, 9, 274–285.
Da Rosa AAS
(2005) Paleoalterações de depósitos sedimentares de planícies aluviais do
Triássico Médio a superior do sul do Brasil: caracterização, análise
estratigráfica e preservação fossilífera. Tese de Doutorado. UNISINOS, São
Leopoldo.
França MAG de, Ferigolo J, Langer MC (2011). Associated
skeletons of a new middle Triassic "Rauisuchia" from Brazil. Naturwissenschaften
98 (5): 389–395. doi:10.1007/s00114-011-0782-3.
Li C, Wu X-C, Cheng
Y-N, Sato T, Wang L (2006) An unusual archosaurian from the marine Triassic of
China. Naturwissenschaften 93:200–206.
Nesbitt SJ, Norell MA
(2006) Extreme convergence in the body plans of an early suchian (Archosauria)
and ornithomimid dinosaurs (Theropoda). Proc R Soc B Biol Sci
273(1590):1045–1048.
Romer AS (1971) The
Chañares (Argentina) Triassic reptile fauna. VIII. A fragmentary skull of a
large thecodont, Luperosuchus fractus. Breviora 373:1–8.
Sander PM (1992) The
Norian Plateosaurus bonebeds of central Europe and their taphonomy. Palaeogeogr
Palaeoclimatol Palaeoecol 93:255–299.
Schoch RR (2007)
Osteology of the small archosaur Aetosaurus from the Upper Triassic of Germany.
Neues Jahrbuch für Geologie und Paläontologie. Abhandlungen 246(1):1–35.
Schwartz HL, Gillette
DD (1994) Geology and taphonomy of the Coelophysis quarry, Upper Triassic
Chinle Formation, Ghost Ranch, New Mexico. Journal of Palaentology
68:1118–1130.
Sobre o autor:
Marco Aurélio de Gallo França é paleontólogo brasileiro,
focado atualmente em pesquisas com arcossauros basais, mas já trabalhou com
outros grupos fósseis, como tartarugas e dinossauros. Está no doutorado na
Bologia Comparada (FFCLRP-USP/Ribeirão Preto), com a orientação de Max Cardoso Langer.
Gosta de cerveja, principalmente acompanhada de bons amigos. Para aliviar a
tensão, nas horas vagas dedica-se ao samba e a MPB, mas como hobby. Lattes.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Amazônia: sob a luz da lua e o canto do capitão-da-mata!
Por Sarah S. Oliveira
Sou
bióloga, doutoranda, interessada em evolução, trabalhos de campo e insetos. Ao
longo de minha formação acadêmica obtive experiência de campo em áreas de
Cerrado e floresta Atlântica, até então a Amazônia era uma realidade distante.
Mas, os acasos sucessivos que regem a vida de todos nós, deixaram saudades de
uma Amazônia que pretendo voltar sempre.
Minha
primeira experiência (resultado de um convite para participar de uma expedição
de um mês ao alto Rio Negro, em julho de 2009) foi um tanto inusitada, por dois
motivos principais: a expectativa e a decepção.
Embarquei
em Campinas sorridente, muitíssimo feliz e ansiosa para conhecer esse universo
chamado Amazônia. Digo universo
porque não basta saber que é a maior floresta tropical do planeta, com expressiva
biodiversidade associada, formada por árvores de grande porte em um solo
muitíssimo pobre altamente dependente dos nutrientes resultantes da
decomposição da serrapilheira. Universo
porque não há livro didático e noticiário social ou científico que transmita a
quem não a conhece a noção espacial exata do que é essa imensa floresta! Em um
vôo de 3h40 até Manaus, duas horas se dão sobre floresta, mata nativa intocada,
e isso é apenas a porção leste da floresta, muito menor do que toda a região
entre Manaus e o oeste da América do Sul (aproximadamente 2400Km). O triste é
saber que voamos boa parte do tempo (aproximadamente 40 minutos) sobre área
desmatada, hoje plantação de soja e algodão no Mato Grosso, e que outrora essa
paisagem seria outra. Eu não sou contra ocupações humanas e sei que as
plantações permitem que as pessoas comam e se vistam. O problema é como se dá
boa parte dessas ocupações. Hoje se sabe que a floresta, explorada de forma
adequada (p.ex. manejo sustentável da pesca, agricultura e pecuária, produção
de açaí, castanha-do-pará e madeira), permite conciliar ocupação humana e áreas
não desmatadas. Mas essa informação não é levada em conta na maioria das vezes,
infelizmente.
A decepção, apesar do negativismo que cerca a palavra, transformou-se em um grande aprendizado humanitário. Depois de quatro dias subindo o Rio Negro em direção aos limites dos estados do Amazonas e Roraima, sob escolta de garças e botos, nosso barco naufragou nas proximidades da Comunidade São José, Igarapé do Malalahah. Felizmente nenhum ferido e poucas perdas materiais, mas não conseguimos coletar. Passamos um dia no salão de festas de uma comunidade ribeirinha, cercados pela curiosidade das crianças, pelas “guloseimas” calóricas retiradas do naufrágio, bebendo água do igarapé e comendo mandioca cozida preparada pelas mães da comunidade. Os homens não estavam presentes, exceto os mais idosos. Ficam dias na mata recolhendo piaçava (ou piaçaba), fibras utilizadas para produzir vassouras. Periodicamente voltam à comunidade para rever suas famílias e comercializar os enormes fardos de fibras. Esse dinheiro é utilizado para comprar gasolina para o gerador (utilizado para iluminar a comunidade poucas horas à noite) e mantimentos industrializados. As crianças recebem atendimento médico periódico, são alfabetizadas na escola da comunidade e muito curiosas em relação ao restante do mundo, já que há uma televisão comunitária em que assistem o Jornal Nacional e a novela das “oito” todos os dias. Depois disso as luzes se apagam e a lua cumpre o seu papel.

Posso dizer que a experiência de dormir ao relento, sob a luz da lua, ao som das águas negras e do capitão-da-mata (uma ave que tem um canto muito alto e característico) nos faz repensar profundamente nosso lugar na natureza e a maneira desleal com que o homem tem interagido com o meio ambiente.
No dia
seguinte fomos resgatados por uma embarcação vinda de Barcelos, retornamos à Manaus
e, por terra, fomos coletar no município de Presidente Figueiredo.
A
comunidade de Figueiredo, ao contrário da que conheci no alto Rio Negro, tem
energia elétrica. Mas me surpreendi ao saber que a luz na região data de 2006
(programa “Luz para todos”), em uma comunidade a apenas 70Km de asfalto de Manaus.
A melhor palavra para explicar isso, a meu ver, é descaso das autoridades públicas. A mandioca e a caça são a base da
alimentação e o dinheiro do “Bolsa família” é gasto com mantimentos como arroz
e feijão. Todos vão à escola, inclusive os pais.
É muito
interessante ver pai, mãe e filhos caminhando no meio da tarde em direção à
escola e voltando tarde da noite. Como viajamos para coletar insetos, com
armadilhas espalhadas ao entorno da comunidade e nas trilhas, corriqueiramente
eles param nas armadilhas, perguntam, aprendem, e se perdem novamente na
escuridão.
Diferente,
mas interessante é ver a mata transpirar por horas após uma chuva efêmera e
continuar “chovendo” em seu interior mesmo que a chuva já tenha cessado por
completo. O calor e a umidade são indescritíveis, a sensação é de como se tivéssemos
tomado muita chuva enquanto caminhando sob o sol por horas .... E horas ... E horas
.... mesmo que não tivesse chovido.

As
árvores geralmente são muito altas, com troncos finos e roliços (estioladas),
galhadas apenas nas copas, de forma que a paisagem torna-se bastante
repetitiva, explicando a grande quantidade de episódios em que muitos viajantes
inexperientes se perdem. Mas a mata em si não é difícil de ser adentrada. O
solo é regular facilitando o acesso, muito diferente dos remanescentes de
Floresta Atlântica, em que o terreno é geralmente íngreme, com predomínio de
arbustos. Nada melhor que um mateiro (pessoa da região com um grande
conhecimento da mata local) para nos levar aos diferentes ambientes dentro da
mata (campinas, cachoeiras, igarapés, bromélias aos montes no chão, etc.) e
ensinar nomes populares da natureza ao redor. É interessante notar que a
paisagem não é a mesma ao longo de toda a floresta, e que a mesma não é
composta apenas por áreas planas e rios calmos. Particularmente gostei do
“mulateiro”, uma árvore com tronco vermelho vivo, fácil de reconhecer de longe,
e da famigerada castanha-do-Pará ou castanha-do-Brasil, árvore imponente com
seus ouriços repletos de castanhas.


Durante
as coletas, o panorama geral é bem diferente. O material coletado por meio dos
diferentes tipos de armadilhas é muitíssimo variável, inusitado, colorido e
vistoso. Muitas espécies encontradas certamente são novas, já que a região é
pouco estudada, mas isso só é confirmado após exaustivos estudos realizados por
especialistas e publicados em artigos científicos.
Este
ano voltei à Manaus (em junho de 2010). Dessa vez sem naufrágio coletamos ao
longo das matas dos afluentes ao norte do Rio Negro. Exploramos os Rios Aracá e
Padauari. As impressões dessas águas escuras ficam para uma próxima postagem.
Sobre a autora:
Sarah Siqueira
de Oliveira é bióloga, estudante de doutorado, interessada
em evolução, trabalhos de campo, insetos, sistemática filogenética,
biogeografia, educação e ensino de ciências. Escreve ensaios sobre diversos
temas em biologia e divulga eventos de interesse geral no blog Forma, Tempo e Espaço. Lattes.
Fotos de Sarah Oliveira, Chico Felipe e Josenir
Câmara.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Monstros primitivos inalterados por milhões de anos?
Por Felipe Chinaglia Montefeltro
Os crocodilianos, como são convencionalmente
denominadas as espécies viventes de jacarés, crocodilos e gavial, sempre me
fascinaram. A idéia de um grande predador de “sangue frio” capaz de subjugar os
tão famigerados animais de “sangue quente” me encanta desde sempre. Em minha
opinião, uma das seqüências de imagens mais impressionantes já registradas,
repetidamente exibidas em programas de vida selvagem (felizmente!), são as manadas
de gnus durante sua migração anual atravessando os rios do parque nacional do
Serengeti (Tanzânia, África), enquanto crocodilos do Nilo (Crocodylus niloticus) lançam seus ataques fulminantes. Alguns
destes crocodilos alcançam mais de 4,5 metros, e suas mandíbulas são capazes de
prender facilmente o dorso de um gnu adulto, que dificilmente escapa quando o
ataque é bem sucedido.
Os crocodilianos, formalmente
incluídos num grupo maior, conhecido por Crocodyliformes, representam uma
ínfima parte de toda a diversidade das mais de 50.000 espécies de vertebrados. Atualmente
são reconhecidas 23 espécies para os crocodiliformes, perfazendo por volta de
0,046% dos táxons conhecidos de vertebrados viventes. Esta mínima porção fica
evidenciada quando comparamos os crocodilianos às mais de 25,000 espécies de peixes
de nadadeira raiada (Actionopterygii) ou às mais de 9,100 espécies de aves. As
23 espécies são incluídas em 8 gêneros e 3 famílias exibindo uma distribuição
circuntropical. A família Gavialidae abrange um único gênero e uma única espécie,
Gavialis gangeticus, que se distribui
do Paquistão até Myanmar. A Família Crocodylidae apresenta a distribuição mais
ampla do grupo circunscrevendo três gêneros (Crocodylus, Tomistoma e
Osteolaemus) que se distribuem pela América Central, norte da América do
Sul, África subsaariana, Índia oriental, sudeste asiático (continental e
insular) e Oceania, incluindo a região norte da Austrália. A família restante
(Alligatoridae) inclui os “jacarés” e aligátores. Esta família inclui 4 gêneros
(Alligator, Cayman, Melanosuchus e Paleosuchus) e
possui distribuição por toda a América tropical, além de uma única espécie (Alligator sinensis) ocorrendo no extremo
leste da China, o que representa uma interessante questão biogeográfica.
Crocodylus niloticus
Gavialis gangeticus
Alligator sinensis
Prescindindo a inegável afirmação de que
a “similaridade existe nos olhos do observador”, todas as espécies atuais de
crocodilianos apresentam ecologia e morfologia muito semelhantes, acarretando
na idéia de um grupo monótono e homogêneo. Esta visão é extrapolada também para
toda a história evolutiva dos Crocodyliformes. Tal extrapolação ocorre porque, com
base nos fósseis, é possível reconhecer que durante grande parte da história
evolutiva do grupo houve formas semi-aquáticas predadoras de espreita e com
focinho comprimido, que de uma maneira geral são semelhantes às formas atuais. Deste
modo, concluiu-se que o grupo como um todo permaneceu morfologicamente estático
desde o Mesozóico (250-65 milhões de anos). Buckland foi o primeiro a afirmar
(em uma tradução livre) em 1836 que “os répteis fósseis da família crocodiliana
não se diferenciam muito dos gêneros viventes não requerendo qualquer descrição
sobre algo peculiar”. Nem mesmo a adoção do paradigma evolutivo foi capaz de alterar
tal perspectiva de imediato.
Todavia, esta visão vem se alterando ao
longo das últimas décadas, especialmente com a descoberta, e reavaliações, de alguns
fósseis de Crocodyliformes de morfologia peculiar conjuntamente com novas
análises filogenéticas para o grupo. Neste contexto, o Brasil contribuiu muito
com a mudança sobre o entendimento da evolução do grupo. Formas encontradas em
rochas do Cretáceo (150-65 milhões de anos) do Brasil têm sugerido a existência
de hábitos alimentares diferentes da atual “carnívora estrita” encontrada para
as espécies recentes. Como por exemplo, Sphagesaurus
huenei e Candidodon itapecuruensis
que possuem dentição posterior diferenciada que possivelmente estariam
relacionadas a alimentação onívora ou herbívora. Ainda, as famílias
Baurusuchidae e Peirosauridae, que não são restritas ao Brasil, representam
formas predadoras de médio porte, com dentes curvados portando margens
serrilhadas, lembrando dentes de dinossauros carnívoros terópodes. A morfologia
de sua narina externa, coluna e membros sugerem, ainda, que seriam animais
terrestres e predadores ativos.
Outros muitos exemplos de fósseis de
Crocodyliformes recém descobertos (ou reestudados) poderiam ser citados como
exemplos de mudanças no entendimento sobre a evolução do grupo; alguns, como os
supracitados, exemplificam tal mudança em vários aspectos, outros simplesmente
alteram sutilmente a percepção sobre uma única característica. Adicionalmente
às morfologias incomuns destes fósseis, as análises filogenéticas atuais apontam
algo também interessante. Tais estudos apontam que espécies semi-aquáticas
predadoras de espreita e com focinho comprimido são associadas a diferentes grupos,
tendo sido selecionadas independentemente mais de uma vez durante a evolução do
grupo. Sendo assim, baseada no conhecimento atual sobre a evolução do grupo, a
morfologia aparentemente “primitiva” dos Crocodyliformes atuais deve ser
encarada como algo modificada, não havendo justificativas para encarar estes
animais como fósseis vivos inalterados por milhões de anos. O que, em minha
opinião, tornaria ainda mais interessante as imagens dos crocodilos atacando um
bando de gnus no Serengeti. Agora não mais como monstros primitivos, resquícios
de um mundo antigo dominado por répteis gigantes, mas sim, um grupo de predadores
relativamente recentes e especializados!
Sphagesaurus montealtensis
Sphagesaurus montealtensis
Montealtosuchus arrudacamposi
Fonte das
figuras e Para saber mais:
Diversidade de Crocodiliformes:
Crocodylus niloticus: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/39/Crocodylus_niloticus.jpg
Gavialis gangeticus: http://www.biolib.cz/IMG/GAL/7992.jpg
Alligator sinensis: http://www.brim.ac.cn/brime/bdinchn/photo/29.jpg
As figuras e reconstituição do Sphagesaurus montealtensis foi retirado de:
Andrade MB,
Bertini RJ. 2008. A new Sphagesaurus
(Mesoeucrocodylia: Notosuchia) from the Upper Cretaceous of Monte Alto City
(Bauru Group, Brazil), and a revision of the Sphagesauridae. Hystorical
Biology 20:101-136.
Já a foto do Montealtosuchus
foi retirada de
Carvalho
IS, Vasconcellos FM, Tavares SAS. 2007. Montealtosuchus arrudacamposi, a new peirosaurid crocodile
(Mesoeucrocodylia) from the Late Cretaceous Adamantina Formation of Brazil. Zootaxa 1607:35-46.
Sobre o autor:
Felipe
Chinaglia Montefeltro
é doutorando em Biologia Comparada pela FFCLRP-USP, concentra seus estudos nas
relações filogenéticas dos Rhynchosauria e Crocodyliformes. Apesar de ter se
envolvido com os estudos dos fósseis desde os primeiros passos da carreira
acadêmica (como resultado de uma infância e adolescência "dinonerd"),
se interessa em quase qualquer assunto em que a biologia esteja envolvida,
especialmente evolução. Lattes.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Em cartaz: Deve um biólogo apreciar “A Marcha dos Pinguins”?
Figura
01. Fêmeas de pinguim imperador após deixarem o ovo, se dirigindo para o mar em
busca de alimento.
Figura
02. Os filhotes nascem após um rigoroso inverno e o ciclo de vida dos pinguins
imperadores continua.
Eis a
pergunta que me fiz ao comentar sobre esse documentário com alguns de meus
colegas biólogos que foram severamente críticos a ele. Para quem não sabe ou
não lembra “A Marcha dos Pinguins” é
um documentário dirigido pelo francês Luc Jacquet lançado em
2006 que na época causou comoção nos cinemas do mundo todo, sendo indicado ao
prêmio César de melhor filme e vencendo
o Oscar de melhor documentário. “A Marcha dos Pinguins” conta o ciclo de
vida dos pinguins imperadores no desértico gelo da Antártida, desde a busca
pelo companheiro ideal até a preparação dos filhotes para a vida adulta.
Interessantemente, entre os pinguins imperadores há uma inversão de papéis
entre machos e fêmeas, onde a fêmea deixa o ovo para ser chocado pelo macho,
enquanto vai ao mar em busca de alimento. A fêmea regressa entre a altura do
nascimento da cria e até dez dias depois. Dentre as centenas de outros pinguins
machos , a femea encontra o seu par através do seu chamamento vocal, passando
ela a tomar conta da cria.
Cinematograficamente falando, o
documentário é esplêndido. Belíssimas e delicadas imagens, tratadas com
aprumado esmero e atentas a todos os detalhes, seja dos gestos dos pinguins,
seja da paisagem desértica da Antártida.
Cabe lembrar que Jacquet, com o auxílio dos seus dois diretores de
fotografia (os franceses Laurent Chalet e Jérôme Maison), filmou em
condições bastante adversas, sob intensas nevascas e temperaturas que chegavam
a -40°C. Acompanhando a beleza das imagens está uma brilhante edição de som e
uma magnífica trilha sonora comandada pela cantora francesa Émilie Simon, que
inclusive ganhou o prêmio César de
melhor Trilha Sonora Original de 2006.
Mas
então, qual o problema com “A Marcha dos
Pinguins”? A razão da repulsa provocada pelo documentário entre os biológos
é a antropomorfização dos pinguins, através de narrações humanizadas,
provendo-os de sentimentos como amor, saudades, ciúmes e frustração. Em uma
passagem do filme, por exemplo, vemos (e ouvimos sob a narração das atrizes Romane Bohringer na versão
americana e Patrícia Pillar na versão brasileira) a pinguim fêmea lamentar a rachadura
do ovo de maneira semelhante a uma mãe que perde um filho. Sinceramente, apesar
de entender os problemas dessa antropomorfização, já que ela distorce as ações
naturais dos animais, não vejo motivo para tanta severidade nas críticas e
defendo que sim, esse documentário deve ser apreciado pelos biólogos.
Obviamente
que essa narrativa de caráter humano serve para envolver o público na luta dos
pinguins para dar continuidade ao seu ciclo de vida frente às grandes
dificuldades do gelo antártico. Apesar disso, não a vejo como um apelo
comercial ao documentário, a encaro mais como um desafio de Jacquet em poetizar
o ciclo de vida dos pinguins imperadores. E ele cumpre com esse desafio. Em
nenhum momento a narrativa comete erros sobre a biologia destas aves e nem se
torna piegas ou apelativa. Ela realmente nos envolve na história de maneira
arrebatadora, nos emocionando com a história dos pinguins e com o ambiente em
que eles vivem. Entendo que as ações dos pinguins são guiadas por um
comportamento que provavelmente foi selecionado ao longo da evolução e não por
sentimentos humanizados. Entretanto, não há motivo em impedir que a arte verse
à sua moda sobre a natureza, ainda mais de forma tão brilhante como neste
documentário. “Marcha dos Pinguins” é
um bom exemplo da importância de se relacionar inteligentemente arte e ciência,
no sentido de tornar a difusão dos conteúdos científicos de maneira mais
interessante e atrativa. Além disso, a ciência pode se aproveitar da
inestimável capacidade da arte de provocar o ser humano e fazê-lo refletir,
assim como “A Marcha dos Pinguins”
nos faz refletir sobre uma natureza, a qual também fazemos parte, mas
insistimos em destruir.
Sobre o autor:
Carlos Alexandre H. Fernandes é um
exemplo de multifuncionalidade.
Envolveu-se com artes
cênicas
durante toda a sua adolescência, ao final dela descobriu sua paixão pela
História, mas acabou licenciando-se em Ciências Biológicas pelo Instituto de
Biociências de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Júlio de
Mesquita Filho" (UNESP), onde concluiu também o seu mestrado e agora faz o
seu doutorado na área de biologia molecular estrutural, estudando proteínas de
veneno de serpentes. O tempo fez com que largasse o teatro, mas não as artes.
Atualmente se vê envolvido com cinema e dirige um cineclube na cidade de
Botucatu. Currículo Lattes.
Fonte das
Figuras: http://thecia.com.au/reviews/m/march-of-the-penguins.shtml
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