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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Uma nova espécie de predador triássico do Rio Grande do Sul


Por Marco Aurélio de Gallo França

O Achado:
No início do ano de 2001, paleontólogos do Museu de Ciências Naturais da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (MCN/FZB-RS) - Dr. Jorge Ferigolo, Dra. Ana Maria Ribeiro e Dr. Ricardo Negri - com o apoio financeiro do projeto Pró-Guaíba/BID, saíram em uma viagem de campo atrás de sítios paleontológicos gaúchos que afloram rochas triássicas (período entre 245 e 205 milhões de anos atrás). Dentro da rota planejada para a viagem estava o afloramento informalmente denominado de “posto”, pois o mesmo se encontra na entrada da cidade de Dona Francisca, região central do Rio Grande do Sul, logo atrás de um posto de gasolina que beira a estrada.
FIGURA 1- Mapa do Brasil destacando o Estado do Rio Grande de Sul e a Região da Quarta colônia (em azul), com uma foto aérea da entrada da cidade de Dona Francisca aonde o fóssil foi encontrado (Localidade Posto de Gasolina).

Após algum tempo de caminhada pelo afloramento, de levanta e agacha pra ver se o que tem ali no chão é rocha, lixo ou fóssil, o Jorge encontra alguma coisa que parecia interessante: “Ana, achei uma coisa aqui que parece um crânio!!!”. Por ele ser um tanto brincalhão, ela duvidou logo de cara. Mas após ir até o local, ambos confirmaram se tratar de um crânio, e não pequeno (cerca de 30 cm de comprimento). Aí começava o que todo paleontólogo faz quando encontra alguma coisa: escavar em volta pra ver se tem mais fóssil preservado. E... não é que tinha!!! E não era pouca coisa não! Mesmo no campo, coberto por sedimento, com a terra meio úmida, logo os paleontólogos conseguiram identificar que o crânio estava conectado à um pescoço... e este à uma cintura pélvica (bacia)... e esta numa cauda... e este indivíduo quase completo estava com mais outros crânios e esqueletos!
FIGURA 2 – Foto do fossil encontrado ainda na localidade (acima, à esquerda) e uma reconstituição das partes preservadas dos esqueletos (abaixo, à esquerda). Esquema representativo da disposição dos esqueletos no campo (à direita; os números corresponde a quantidade de indivíduos preservados amontoados).

Se achar um pedacinho quebrado pra nós paleontólogos já é algo interessante, imagine o quão sensacional é achar um crânio e perceber que existe mais coisa ainda ali junto! Passado a euforia, vem a parte chata e braçal: tirar o fóssil do afloramento para levá-lo ao laboratório aonde será preparado e estudado. Querendo preservar o material como estava no campo para extrair mais dados de como os animais teriam morrido, eles fizeram um bloco gigantesco, cerca de 6 metros quadrados e pesando em torno de meia tonelada. Infelizmente, o bloco não agüentou... muito também por causa da chuva que acompanhava os paleontólogos durante a extração do bloco. Sendo assim, o material foi levado em partes para o Laboratório de Paleontologia da FZB. Lá, o Negri começou a montar as partes do bloco e preparar o material durante seis meses. Após isto, o material ficou por algum tempo sem ninguém estudá-lo ou prepará-lo.

A Pesquisa:
Em 2007, outras pessoas entram na história. Numa ligação para o Jorge, Max diz ter um aluno que tinha acabado o mestrado, Marco (no caso, eu), e ele precisava de algum material fóssil para fazer seu doutorado. Acordos feitos, Marco começa seus estudos com este material. Já possuía alguma experiência em preparação e julgou que seria fácil preparar este material. Ledo engano... Na primeira visita à capital gaúcha, já viu que o trabalho de preparação ia ser difícil: o material era envolto por uma concreção férrica muito dura. Como o material fóssil preservado é frágil, esta concreção em volta torna a preparação muito difícil e demorada. Imagine que você tenha que tirar o grafite de dentro de um lápis, mas ao invés de uma madeira mole e fácil de ser removida, este lápis esteja envolto por um material muito mais duro, como um tubo de PVC. Estilete, agulha, ponteira... nada disso sequer riscava a concreção. Começou-se a usar, então, canetas pneumáticas [http://www.paleotools.com/products.html]. O que é isto? São instrumentos muito parecidos com aquele motorzinho de dentista que se usa pra furar o dente e extrais a cárie, mas ao invés de movimentos rotatórios, as canetas que se usam na paleontologia realizam movimentos “pra frente e pra trás”. Mesmo assim, o material era difícil de ser preparado. Havia dias que após 8 horas de preparação, uma área “imensa” menor que uma moeda de um centavo era preparado!!! E não era só isso. Estas canetas pneumáticas possuem tamanhos e intensidades diferentes. Começou com uma de nível 1... ponteira quebrada. Nível 2... ponteira quebrada. Nível 3... ponta gasta em menos de um dia de trabalho. Nível 4, usado em materiais grandes, como fêmur de titanossauro... começou a funcionar. Só que as ponteiras duravam cerca de 15 dias e tinha o risco de quebrar todo o material por conta do alto impacto, isso sem dizer que cada ponteira desta custa cerca de 60 dólares!
            Durante três anos e meio, os fósseis iam sendo preparados e estudados concomitantemente. Até que no final do ano passado, com dados suficientes já em mão, os paleontólogos decidem publicar um artigo com os resultados deste trabalho (França et al., 2011). O material achado se tratava de 9 indivíduos amontoados uns sobres os outros, com três crânio bem preservados, e, à priori, todos pertencentes à uma nova espécie: Decuriasuchus quartacolonia.
FIGURA 3 – Crânios preservados de Decuriasuchus quartacolonia. Dois crânios foram preservados sobrepostos (acima) e o outro um pouco mais isolado (abaixo).

Os animais desta espécie eram carnívoros (possuíam dentes pontiagudos com margens serrilhadas), quadrúpedes e mediam cerca de 2,5 metros de comprimento.
FIGURA 4 – Reconstituição de Decuriasuchus quartacolonia.

Faziam parte um grupo chamado Rauisuchia. O que é isto? Hein?? Senta que lá vem a sistemática... Entre todos os animais vivos atualmente, aves e crocodilos são os mais aparentados entre si, formando um grupo denominado de Archosauria. Estes dois grupos atuais são somente um resquício da Biodiversidade do passado (clichê paleontológico! Hehehe). Os arcossauros se diversificaram durante o período triássico em duas grandes linhagens (Brusatte et al., 2010): uma pró-aviana, denominada de Ornithosuchia e da qual faz parte também os dinossauros (sim, ave é um dinossauro!!!); e outra pró-crocodiliana, denominada de Pseudosuchia e da qual faz parte vários grupos fósseis que se extinguiram no final do período triássico, sendo os crocodilomorfos os únicos sobreviventes. Destes grupos que se extinguiram estão os fitossauros (arcossauros aquáticos, com focinhos alongados), aetossauros (arcossauros encouraçados, possuindo placas ósseas de formatos diversos em suas costas), os ornitossuquídeos (arcossauros com crânios esquisitos, com a mandíbula reduzida em comprimento e a ponta do focinho voltada pra baixo) e os rauissúquios, ou Rauisuchia, do qual esta nova espécie faz parte.
FIGURA 5 – Cladograma representando o parentesco entre os grupos de Archosauria.

Este grupo era considerado até a década de 90 composto por grandes predadores topo de cadeia, quadrúpedes e que tinham morfologia distinta da bacia que permitia uma locomoção mais rápida. Entre os maiores da sua época nos ecossistemas terrestres, podiam medir até 9 metros de comprimento. Existe um crânio na UFRGS de aproximadamente um metro de comprimento, pertencente à espécie Prestosuchus chiniquensis (Barberena, 1978). Durante a década de 90, pesquisadores encontraram animais deste grupo que são bípedes, desprovidos de dentes e provavelmente portando bicos córneos, como nas tartarugas, como Effigia okeeffeae (Nesbitt & Norell, 2006) e Shuvosaurus inexpectatus (Chatterjee, 1993). Mais recentemente, há indícios fortes de que uma das espécies, Qianosuchus mixtus (Li et al., 2006), possuía hábito aquático. Ou seja, Rauisuchia representa um grupo muito mais diverso do que se aparentava até então.
FIGURA 6 – Exemplos de espécies de Rauisuchia, apresentando a diversidade de tamanho e hábitos.

Entre estas novidades está Decuriasuchus. Foram encontrados 10 indivíduos naquele afloramento no município de Dona Francisca, sendo que 9 deles estavam praticamente uns sobre os outros. Como seus esqueletos estão praticamente articulados, pode-se afirmar que eles estavam próximos uns dos outros antes de suas mortes, demonstrando um comportamento social mais desenvolvido do que se pensava: grandes répteis predadores tendem a viverem de forma mais isolada e não em “comunidade”. Este aglomeração de indivíduos pode ter causa e consequências diversas. Estudos apontam que aquela região no triássico era uma planície de inundação, com períodos de secas drásticas e outros de chuvas intensas (Da Rosa, 2005), o que pode ter servido de “refúgio” para estes animais.
FIGURA 7 – Imagem de uma planície de inundação atual com paisagem similar à considerada para a localidade aonde Decuriasuchus foi coletado.

É comum espécies de animais predadores de porte menor, caso do dinossauro Velociraptor, viverem em bando para defesa de predadores maiores ou ainda para caçar em bandos, o que poderia ter acontecido com Decuriasuchus. A verdade é que a resposta dos porquês destes indivíduos estarem juntos é pura especulação, mas é fato que eles viviam próximos uns dos outros. Paralelamente, outros aglomerados da mesma espécie em arcossauros, embora raros, são mais comum em dinossauros jurássico, sendo um comportamento social desenvolvido descrito em vários grupos de dinossauros. No período triássico, afloramentos possuindo vários indivíduos da mesma espécie são mais escassos, sendo descritos em dinossauro terópode Coelophysis bauri do novo México, EUA (Schwartz & Gillette, 1994), em dinossauro sauropodomorfo basal Plateosaurus da europa central (Sander, 1992), e no pseudossúquio Aetosaurus ferratus da Alemanha (Schoch, 2007). Todos estes são datados do Triássico Superior (Noriano-Rhaetiano, aproximadamente entre 220 e 205 milhões de anos atrás). As rochas do afloramento “posto”, aonde foram encontrados Decuriasuchus, são de aproximadamente 235-240 milhões de anos atrás, podendo-se dizer que esta nova espécie é o registro mais antigo de comportamento gregário em arcossauros.
FIGURA 8 – Exemplos de preservação com vários indivíduos em Archosauria. Acima, Aetosaurus ferratus, um Aetosauria (Pseudosuchia) do Triássico Superior da Alemanha; abaixo, Coleophysis bauri, um Dinosauria (Ornithosuchia) do Triássico superior dos Estados Unidos.

            Sobre o nome desta nova espécie, há algumas curiosidades. Decuria/suchus: o termo “decuria” faz referência à unidade do exército romano constituída por 10 soldados, como no caso dos 10 indivíduos achados no afloramento e também em referência à uma estrutura protuberante que existe no osso Nasal compartilhado por algumas espécies do grupo Rauisuchia que foi descrito por Romer (1971) como sendo o focinho tipo nariz romano; já “suchus” é um termo grego que se refere ao deus egípcio com cabeça de crocodilo, fazendo referência ao posicionamento da espécie na linhagem pró-crocodiliana. O nome específico “quartacolonia” refere-se à região no interior do estado do Rio Grande denominada de Quarta Colônia por ser a quarta região à abrigar os imigrantes italianos no século passado e da qual faz parte o município de Dona Francisca, aonde foram coletados os fósseis.

  
Citações Bibliográficas:

Barberena, M. C. 1978. A huge thecodont skull from the Triassic of Brazil. Pesquisas, 7, 111–129.
Brusatte S, Benton MJ, Desojo J, Langer MC (2010) The higher-level phylogeny of Archosauria (Tetrapoda: Diapsida). J Syst Paleontol 8:3–47.
Chatterjee, S. 1993. Shuvosaurus, a new theropod. National Geographic Research and Exploration, 9, 274–285.
Da Rosa AAS (2005) Paleoalterações de depósitos sedimentares de planícies aluviais do Triássico Médio a superior do sul do Brasil: caracterização, análise estratigráfica e preservação fossilífera. Tese de Doutorado. UNISINOS, São Leopoldo.
França MAG de, Ferigolo J, Langer MC (2011). Associated skeletons of a new middle Triassic "Rauisuchia" from Brazil. Naturwissenschaften 98 (5): 389–395. doi:10.1007/s00114-011-0782-3.
Li C, Wu X-C, Cheng Y-N, Sato T, Wang L (2006) An unusual archosaurian from the marine Triassic of China. Naturwissenschaften 93:200–206.
Nesbitt SJ, Norell MA (2006) Extreme convergence in the body plans of an early suchian (Archosauria) and ornithomimid dinosaurs (Theropoda). Proc R Soc B Biol Sci 273(1590):1045–1048.
Romer AS (1971) The Chañares (Argentina) Triassic reptile fauna. VIII. A fragmentary skull of a large thecodont, Luperosuchus fractus. Breviora 373:1–8.
Sander PM (1992) The Norian Plateosaurus bonebeds of central Europe and their taphonomy. Palaeogeogr Palaeoclimatol Palaeoecol 93:255–299.
Schoch RR (2007) Osteology of the small archosaur Aetosaurus from the Upper Triassic of Germany. Neues Jahrbuch für Geologie und Paläontologie. Abhandlungen 246(1):1–35.
Schwartz HL, Gillette DD (1994) Geology and taphonomy of the Coelophysis quarry, Upper Triassic Chinle Formation, Ghost Ranch, New Mexico. Journal of Palaentology 68:1118–1130.

Sobre o autor:



Marco Aurélio de Gallo França é paleontólogo brasileiro, focado atualmente em pesquisas com arcossauros basais, mas já trabalhou com outros grupos fósseis, como tartarugas e dinossauros. Está no doutorado na Bologia Comparada (FFCLRP-USP/Ribeirão Preto), com a orientação de Max Cardoso Langer. Gosta de cerveja, principalmente acompanhada de bons amigos. Para aliviar a tensão, nas horas vagas dedica-se ao samba e a MPB, mas como hobby. Lattes.




terça-feira, 19 de outubro de 2010

Amazônia: sob a luz da lua e o canto do capitão-da-mata!


Por Sarah S. Oliveira

Sou bióloga, doutoranda, interessada em evolução, trabalhos de campo e insetos. Ao longo de minha formação acadêmica obtive experiência de campo em áreas de Cerrado e floresta Atlântica, até então a Amazônia era uma realidade distante. Mas, os acasos sucessivos que regem a vida de todos nós, deixaram saudades de uma Amazônia que pretendo voltar sempre. 





Minha primeira experiência (resultado de um convite para participar de uma expedição de um mês ao alto Rio Negro, em julho de 2009) foi um tanto inusitada, por dois motivos principais: a expectativa e a decepção.
Embarquei em Campinas sorridente, muitíssimo feliz e ansiosa para conhecer esse universo chamado Amazônia. Digo universo porque não basta saber que é a maior floresta tropical do planeta, com expressiva biodiversidade associada, formada por árvores de grande porte em um solo muitíssimo pobre altamente dependente dos nutrientes resultantes da decomposição da serrapilheira. Universo porque não há livro didático e noticiário social ou científico que transmita a quem não a conhece a noção espacial exata do que é essa imensa floresta! Em um vôo de 3h40 até Manaus, duas horas se dão sobre floresta, mata nativa intocada, e isso é apenas a porção leste da floresta, muito menor do que toda a região entre Manaus e o oeste da América do Sul (aproximadamente 2400Km). O triste é saber que voamos boa parte do tempo (aproximadamente 40 minutos) sobre área desmatada, hoje plantação de soja e algodão no Mato Grosso, e que outrora essa paisagem seria outra. Eu não sou contra ocupações humanas e sei que as plantações permitem que as pessoas comam e se vistam. O problema é como se dá boa parte dessas ocupações. Hoje se sabe que a floresta, explorada de forma adequada (p.ex. manejo sustentável da pesca, agricultura e pecuária, produção de açaí, castanha-do-pará e madeira), permite conciliar ocupação humana e áreas não desmatadas. Mas essa informação não é levada em conta na maioria das vezes, infelizmente.







 A decepção, apesar do negativismo que cerca a palavra, transformou-se em um grande aprendizado humanitário. Depois de quatro dias subindo o Rio Negro em direção aos limites dos estados do Amazonas e Roraima, sob escolta de garças e botos, nosso barco naufragou nas proximidades da Comunidade São José, Igarapé do Malalahah. Felizmente nenhum ferido e poucas perdas materiais, mas não conseguimos coletar. Passamos um dia no salão de festas de uma comunidade ribeirinha, cercados pela curiosidade das crianças, pelas “guloseimas” calóricas retiradas do naufrágio, bebendo água do igarapé e comendo mandioca cozida preparada pelas mães da comunidade. Os homens não estavam presentes, exceto os mais idosos. Ficam dias na mata recolhendo piaçava (ou piaçaba), fibras utilizadas para produzir vassouras. Periodicamente voltam à comunidade para rever suas famílias e comercializar os enormes fardos de fibras. Esse dinheiro é utilizado para comprar gasolina para o gerador (utilizado para iluminar a comunidade poucas horas à noite) e mantimentos industrializados. As crianças recebem atendimento médico periódico, são alfabetizadas na escola da comunidade e muito curiosas em relação ao restante do mundo, já que há uma televisão comunitária em que assistem o Jornal Nacional e a novela das “oito” todos os dias. Depois disso as luzes se apagam e a lua cumpre o seu papel.



 Posso dizer que a experiência de dormir ao relento, sob a luz da lua, ao som das águas negras e do capitão-da-mata (uma ave que tem um canto muito alto e característico) nos faz repensar profundamente nosso lugar na natureza e a maneira desleal com que o homem tem interagido com o meio ambiente.
No dia seguinte fomos resgatados por uma embarcação vinda de Barcelos, retornamos à Manaus e, por terra, fomos coletar no município de Presidente Figueiredo.
A comunidade de Figueiredo, ao contrário da que conheci no alto Rio Negro, tem energia elétrica. Mas me surpreendi ao saber que a luz na região data de 2006 (programa “Luz para todos”), em uma comunidade a apenas 70Km de asfalto de Manaus. A melhor palavra para explicar isso, a meu ver, é descaso das autoridades públicas. A mandioca e a caça são a base da alimentação e o dinheiro do “Bolsa família” é gasto com mantimentos como arroz e feijão. Todos vão à escola, inclusive os pais.
É muito interessante ver pai, mãe e filhos caminhando no meio da tarde em direção à escola e voltando tarde da noite. Como viajamos para coletar insetos, com armadilhas espalhadas ao entorno da comunidade e nas trilhas, corriqueiramente eles param nas armadilhas, perguntam, aprendem, e se perdem novamente na escuridão.



Diferente, mas interessante é ver a mata transpirar por horas após uma chuva efêmera e continuar “chovendo” em seu interior mesmo que a chuva já tenha cessado por completo. O calor e a umidade são indescritíveis, a sensação é de como se tivéssemos tomado muita chuva enquanto caminhando sob o sol por horas .... E horas ... E horas .... mesmo que não tivesse chovido.






As árvores geralmente são muito altas, com troncos finos e roliços (estioladas), galhadas apenas nas copas, de forma que a paisagem torna-se bastante repetitiva, explicando a grande quantidade de episódios em que muitos viajantes inexperientes se perdem. Mas a mata em si não é difícil de ser adentrada. O solo é regular facilitando o acesso, muito diferente dos remanescentes de Floresta Atlântica, em que o terreno é geralmente íngreme, com predomínio de arbustos. Nada melhor que um mateiro (pessoa da região com um grande conhecimento da mata local) para nos levar aos diferentes ambientes dentro da mata (campinas, cachoeiras, igarapés, bromélias aos montes no chão, etc.) e ensinar nomes populares da natureza ao redor. É interessante notar que a paisagem não é a mesma ao longo de toda a floresta, e que a mesma não é composta apenas por áreas planas e rios calmos. Particularmente gostei do “mulateiro”, uma árvore com tronco vermelho vivo, fácil de reconhecer de longe, e da famigerada castanha-do-Pará ou castanha-do-Brasil, árvore imponente com seus ouriços repletos de castanhas.

 Eu esperava caminhar pela mata e ver muitos insetos voando, pássaros, cobras, mamíferos. Mas isso é uma grande ilusão. O mateiro reconhece pegadas, mas para ver uma borboleta voando, só depois de ficarmos parados e em silêncio por um bom tempo. Isso não significa que a floresta não é rica em termos de biodiversidade. Pelo contrário, indica que qualquer mínima alteração é perceptível pelos animais e que os mesmos se escondem rapidamente. Os fatores sazonais também influenciam este tipo de observação.






Durante as coletas, o panorama geral é bem diferente. O material coletado por meio dos diferentes tipos de armadilhas é muitíssimo variável, inusitado, colorido e vistoso. Muitas espécies encontradas certamente são novas, já que a região é pouco estudada, mas isso só é confirmado após exaustivos estudos realizados por especialistas e publicados em artigos científicos.
Este ano voltei à Manaus (em junho de 2010). Dessa vez sem naufrágio coletamos ao longo das matas dos afluentes ao norte do Rio Negro. Exploramos os Rios Aracá e Padauari. As impressões dessas águas escuras ficam para uma próxima postagem.










Sobre a autora:

Sarah Siqueira de Oliveira é bióloga, estudante de doutorado, interessada em evolução, trabalhos de campo, insetos, sistemática filogenética, biogeografia, educação e ensino de ciências. Escreve ensaios sobre diversos temas em biologia e divulga eventos de interesse geral no blog Forma, Tempo e Espaço. Lattes.

Fotos de Sarah Oliveira, Chico Felipe e Josenir Câmara.







sexta-feira, 2 de julho de 2010

Monstros primitivos inalterados por milhões de anos?

Por Felipe Chinaglia Montefeltro

Os crocodilianos, como são convencionalmente denominadas as espécies viventes de jacarés, crocodilos e gavial, sempre me fascinaram. A idéia de um grande predador de “sangue frio” capaz de subjugar os tão famigerados animais de “sangue quente” me encanta desde sempre. Em minha opinião, uma das seqüências de imagens mais impressionantes já registradas, repetidamente exibidas em programas de vida selvagem (felizmente!), são as manadas de gnus durante sua migração anual atravessando os rios do parque nacional do Serengeti (Tanzânia, África), enquanto crocodilos do Nilo (Crocodylus niloticus) lançam seus ataques fulminantes. Alguns destes crocodilos alcançam mais de 4,5 metros, e suas mandíbulas são capazes de prender facilmente o dorso de um gnu adulto, que dificilmente escapa quando o ataque é bem sucedido.
            Os crocodilianos, formalmente incluídos num grupo maior, conhecido por Crocodyliformes, representam uma ínfima parte de toda a diversidade das mais de 50.000 espécies de vertebrados. Atualmente são reconhecidas 23 espécies para os crocodiliformes, perfazendo por volta de 0,046% dos táxons conhecidos de vertebrados viventes. Esta mínima porção fica evidenciada quando comparamos os crocodilianos às mais de 25,000 espécies de peixes de nadadeira raiada (Actionopterygii) ou às mais de 9,100 espécies de aves. As 23 espécies são incluídas em 8 gêneros e 3 famílias exibindo uma distribuição circuntropical. A família Gavialidae abrange um único gênero e uma única espécie, Gavialis gangeticus, que se distribui do Paquistão até Myanmar. A Família Crocodylidae apresenta a distribuição mais ampla do grupo circunscrevendo três gêneros (Crocodylus, Tomistoma e Osteolaemus) que se distribuem pela América Central, norte da América do Sul, África subsaariana, Índia oriental, sudeste asiático (continental e insular) e Oceania, incluindo a região norte da Austrália. A família restante (Alligatoridae) inclui os “jacarés” e aligátores. Esta família inclui 4 gêneros (Alligator, Cayman, Melanosuchus e Paleosuchus) e possui distribuição por toda a América tropical, além de uma única espécie (Alligator sinensis) ocorrendo no extremo leste da China, o que representa uma interessante questão biogeográfica.



Crocodylus niloticus
Gavialis gangeticus
Alligator sinensis

Prescindindo a inegável afirmação de que a “similaridade existe nos olhos do observador”, todas as espécies atuais de crocodilianos apresentam ecologia e morfologia muito semelhantes, acarretando na idéia de um grupo monótono e homogêneo. Esta visão é extrapolada também para toda a história evolutiva dos Crocodyliformes. Tal extrapolação ocorre porque, com base nos fósseis, é possível reconhecer que durante grande parte da história evolutiva do grupo houve formas semi-aquáticas predadoras de espreita e com focinho comprimido, que de uma maneira geral são semelhantes às formas atuais. Deste modo, concluiu-se que o grupo como um todo permaneceu morfologicamente estático desde o Mesozóico (250-65 milhões de anos). Buckland foi o primeiro a afirmar (em uma tradução livre) em 1836 que “os répteis fósseis da família crocodiliana não se diferenciam muito dos gêneros viventes não requerendo qualquer descrição sobre algo peculiar”. Nem mesmo a adoção do paradigma evolutivo foi capaz de alterar tal perspectiva de imediato.
Todavia, esta visão vem se alterando ao longo das últimas décadas, especialmente com a descoberta, e reavaliações, de alguns fósseis de Crocodyliformes de morfologia peculiar conjuntamente com novas análises filogenéticas para o grupo. Neste contexto, o Brasil contribuiu muito com a mudança sobre o entendimento da evolução do grupo. Formas encontradas em rochas do Cretáceo (150-65 milhões de anos) do Brasil têm sugerido a existência de hábitos alimentares diferentes da atual “carnívora estrita” encontrada para as espécies recentes. Como por exemplo, Sphagesaurus huenei e Candidodon itapecuruensis que possuem dentição posterior diferenciada que possivelmente estariam relacionadas a alimentação onívora ou herbívora. Ainda, as famílias Baurusuchidae e Peirosauridae, que não são restritas ao Brasil, representam formas predadoras de médio porte, com dentes curvados portando margens serrilhadas, lembrando dentes de dinossauros carnívoros terópodes. A morfologia de sua narina externa, coluna e membros sugerem, ainda, que seriam animais terrestres e predadores ativos.
Outros muitos exemplos de fósseis de Crocodyliformes recém descobertos (ou reestudados) poderiam ser citados como exemplos de mudanças no entendimento sobre a evolução do grupo; alguns, como os supracitados, exemplificam tal mudança em vários aspectos, outros simplesmente alteram sutilmente a percepção sobre uma única característica. Adicionalmente às morfologias incomuns destes fósseis, as análises filogenéticas atuais apontam algo também interessante. Tais estudos apontam que espécies semi-aquáticas predadoras de espreita e com focinho comprimido são associadas a diferentes grupos, tendo sido selecionadas independentemente mais de uma vez durante a evolução do grupo. Sendo assim, baseada no conhecimento atual sobre a evolução do grupo, a morfologia aparentemente “primitiva” dos Crocodyliformes atuais deve ser encarada como algo modificada, não havendo justificativas para encarar estes animais como fósseis vivos inalterados por milhões de anos. O que, em minha opinião, tornaria ainda mais interessante as imagens dos crocodilos atacando um bando de gnus no Serengeti. Agora não mais como monstros primitivos, resquícios de um mundo antigo dominado por répteis gigantes, mas sim, um grupo de predadores relativamente recentes e especializados!


Sphagesaurus montealtensis
Sphagesaurus montealtensis

Montealtosuchus arrudacamposi

Fonte das figuras e Para saber mais:

Diversidade de Crocodiliformes:
Crocodylus niloticus: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/39/Crocodylus_niloticus.jpg
Gavialis gangeticus: http://www.biolib.cz/IMG/GAL/7992.jpg
Alligator sinensis: http://www.brim.ac.cn/brime/bdinchn/photo/29.jpg

As figuras e reconstituição do Sphagesaurus montealtensis foi retirado de:
Andrade MB, Bertini RJ. 2008. A new Sphagesaurus (Mesoeucrocodylia: Notosuchia) from the Upper Cretaceous of Monte Alto City (Bauru Group, Brazil), and a revision of the Sphagesauridae. Hystorical Biology 20:101-136.

Já a foto do Montealtosuchus foi retirada de
Carvalho IS, Vasconcellos FM, Tavares SAS. 2007. Montealtosuchus arrudacamposi, a new peirosaurid crocodile (Mesoeucrocodylia) from the Late Cretaceous Adamantina Formation of Brazil. Zootaxa 1607:35-46.

Sobre o autor:
Felipe Chinaglia Montefeltro é doutorando em Biologia Comparada pela FFCLRP-USP, concentra seus estudos nas relações filogenéticas dos Rhynchosauria e Crocodyliformes. Apesar de ter se envolvido com os estudos dos fósseis desde os primeiros passos da carreira acadêmica (como resultado de uma infância e adolescência "dinonerd"), se interessa em quase qualquer assunto em que a biologia esteja envolvida, especialmente evolução. Lattes.


sexta-feira, 28 de maio de 2010

Em cartaz: Deve um biólogo apreciar “A Marcha dos Pinguins”?


Figura 01. Fêmeas de pinguim imperador após deixarem o ovo, se dirigindo para o mar em busca de alimento. 

Figura 02. Os filhotes nascem após um rigoroso inverno e o ciclo de vida dos pinguins imperadores continua. 

            Eis a pergunta que me fiz ao comentar sobre esse documentário com alguns de meus colegas biólogos que foram severamente críticos a ele. Para quem não sabe ou não lembra “A Marcha dos Pinguins” é um documentário dirigido pelo francês Luc Jacquet lançado em 2006 que na época causou comoção nos cinemas do mundo todo, sendo indicado ao prêmio César de melhor filme e vencendo o Oscar de melhor documentário. “A Marcha dos Pinguins” conta o ciclo de vida dos pinguins imperadores no desértico gelo da Antártida, desde a busca pelo companheiro ideal até a preparação dos filhotes para a vida adulta. Interessantemente, entre os pinguins imperadores há uma inversão de papéis entre machos e fêmeas, onde a fêmea deixa o ovo para ser chocado pelo macho, enquanto vai ao mar em busca de alimento. A fêmea regressa entre a altura do nascimento da cria e até dez dias depois. Dentre as centenas de outros pinguins machos , a femea encontra o seu par através do seu chamamento vocal, passando ela a tomar conta da cria.
            Cinematograficamente falando, o documentário é esplêndido. Belíssimas e delicadas imagens, tratadas com aprumado esmero e atentas a todos os detalhes, seja dos gestos dos pinguins, seja da paisagem desértica da Antártida.  Cabe lembrar que Jacquet, com o auxílio dos seus dois diretores de fotografia (os franceses Laurent Chalet  e Jérôme Maison), filmou em condições bastante adversas, sob intensas nevascas e temperaturas que chegavam a -40°C. Acompanhando a beleza das imagens está uma brilhante edição de som e uma magnífica trilha sonora comandada pela cantora francesa Émilie Simon, que inclusive ganhou o prêmio César de melhor Trilha Sonora Original de 2006.
Mas então, qual o problema com “A Marcha dos Pinguins”? A razão da repulsa provocada pelo documentário entre os biológos é a antropomorfização dos pinguins, através de narrações humanizadas, provendo-os de sentimentos como amor, saudades, ciúmes e frustração. Em uma passagem do filme, por exemplo, vemos (e ouvimos sob a narração das atrizes Romane Bohringer na versão americana e Patrícia Pillar na versão brasileira) a pinguim fêmea lamentar a rachadura do ovo de maneira semelhante a uma mãe que perde um filho. Sinceramente, apesar de entender os problemas dessa antropomorfização, já que ela distorce as ações naturais dos animais, não vejo motivo para tanta severidade nas críticas e defendo que sim, esse documentário deve ser apreciado pelos biólogos.
            Obviamente que essa narrativa de caráter humano serve para envolver o público na luta dos pinguins para dar continuidade ao seu ciclo de vida frente às grandes dificuldades do gelo antártico. Apesar disso, não a vejo como um apelo comercial ao documentário, a encaro mais como um desafio de Jacquet em poetizar o ciclo de vida dos pinguins imperadores. E ele cumpre com esse desafio. Em nenhum momento a narrativa comete erros sobre a biologia destas aves e nem se torna piegas ou apelativa. Ela realmente nos envolve na história de maneira arrebatadora, nos emocionando com a história dos pinguins e com o ambiente em que eles vivem. Entendo que as ações dos pinguins são guiadas por um comportamento que provavelmente foi selecionado ao longo da evolução e não por sentimentos humanizados. Entretanto, não há motivo em impedir que a arte verse à sua moda sobre a natureza, ainda mais de forma tão brilhante como neste documentário. “Marcha dos Pinguins” é um bom exemplo da importância de se relacionar inteligentemente arte e ciência, no sentido de tornar a difusão dos conteúdos científicos de maneira mais interessante e atrativa. Além disso, a ciência pode se aproveitar da inestimável capacidade da arte de provocar o ser humano e fazê-lo refletir, assim como “A Marcha dos Pinguins” nos faz refletir sobre uma natureza, a qual também fazemos parte, mas insistimos em destruir.   

Sobre o autor:
Carlos Alexandre H. Fernandes é um exemplo de multifuncionalidade.  Envolveu-se com artes cênicas durante toda a sua adolescência, ao final dela descobriu sua paixão pela História, mas acabou licenciando-se em Ciências Biológicas pelo Instituto de Biociências de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP), onde concluiu também o seu mestrado e agora faz o seu doutorado na área de biologia molecular estrutural, estudando proteínas de veneno de serpentes. O tempo fez com que largasse o teatro, mas não as artes. Atualmente se vê envolvido com cinema e dirige um cineclube na cidade de Botucatu. Currículo Lattes.