quarta-feira, 22 de junho de 2011

Uma nova espécie de predador triássico do Rio Grande do Sul


Por Marco Aurélio de Gallo França

O Achado:
No início do ano de 2001, paleontólogos do Museu de Ciências Naturais da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (MCN/FZB-RS) - Dr. Jorge Ferigolo, Dra. Ana Maria Ribeiro e Dr. Ricardo Negri - com o apoio financeiro do projeto Pró-Guaíba/BID, saíram em uma viagem de campo atrás de sítios paleontológicos gaúchos que afloram rochas triássicas (período entre 245 e 205 milhões de anos atrás). Dentro da rota planejada para a viagem estava o afloramento informalmente denominado de “posto”, pois o mesmo se encontra na entrada da cidade de Dona Francisca, região central do Rio Grande do Sul, logo atrás de um posto de gasolina que beira a estrada.
FIGURA 1- Mapa do Brasil destacando o Estado do Rio Grande de Sul e a Região da Quarta colônia (em azul), com uma foto aérea da entrada da cidade de Dona Francisca aonde o fóssil foi encontrado (Localidade Posto de Gasolina).

Após algum tempo de caminhada pelo afloramento, de levanta e agacha pra ver se o que tem ali no chão é rocha, lixo ou fóssil, o Jorge encontra alguma coisa que parecia interessante: “Ana, achei uma coisa aqui que parece um crânio!!!”. Por ele ser um tanto brincalhão, ela duvidou logo de cara. Mas após ir até o local, ambos confirmaram se tratar de um crânio, e não pequeno (cerca de 30 cm de comprimento). Aí começava o que todo paleontólogo faz quando encontra alguma coisa: escavar em volta pra ver se tem mais fóssil preservado. E... não é que tinha!!! E não era pouca coisa não! Mesmo no campo, coberto por sedimento, com a terra meio úmida, logo os paleontólogos conseguiram identificar que o crânio estava conectado à um pescoço... e este à uma cintura pélvica (bacia)... e esta numa cauda... e este indivíduo quase completo estava com mais outros crânios e esqueletos!
FIGURA 2 – Foto do fossil encontrado ainda na localidade (acima, à esquerda) e uma reconstituição das partes preservadas dos esqueletos (abaixo, à esquerda). Esquema representativo da disposição dos esqueletos no campo (à direita; os números corresponde a quantidade de indivíduos preservados amontoados).

Se achar um pedacinho quebrado pra nós paleontólogos já é algo interessante, imagine o quão sensacional é achar um crânio e perceber que existe mais coisa ainda ali junto! Passado a euforia, vem a parte chata e braçal: tirar o fóssil do afloramento para levá-lo ao laboratório aonde será preparado e estudado. Querendo preservar o material como estava no campo para extrair mais dados de como os animais teriam morrido, eles fizeram um bloco gigantesco, cerca de 6 metros quadrados e pesando em torno de meia tonelada. Infelizmente, o bloco não agüentou... muito também por causa da chuva que acompanhava os paleontólogos durante a extração do bloco. Sendo assim, o material foi levado em partes para o Laboratório de Paleontologia da FZB. Lá, o Negri começou a montar as partes do bloco e preparar o material durante seis meses. Após isto, o material ficou por algum tempo sem ninguém estudá-lo ou prepará-lo.

A Pesquisa:
Em 2007, outras pessoas entram na história. Numa ligação para o Jorge, Max diz ter um aluno que tinha acabado o mestrado, Marco (no caso, eu), e ele precisava de algum material fóssil para fazer seu doutorado. Acordos feitos, Marco começa seus estudos com este material. Já possuía alguma experiência em preparação e julgou que seria fácil preparar este material. Ledo engano... Na primeira visita à capital gaúcha, já viu que o trabalho de preparação ia ser difícil: o material era envolto por uma concreção férrica muito dura. Como o material fóssil preservado é frágil, esta concreção em volta torna a preparação muito difícil e demorada. Imagine que você tenha que tirar o grafite de dentro de um lápis, mas ao invés de uma madeira mole e fácil de ser removida, este lápis esteja envolto por um material muito mais duro, como um tubo de PVC. Estilete, agulha, ponteira... nada disso sequer riscava a concreção. Começou-se a usar, então, canetas pneumáticas [http://www.paleotools.com/products.html]. O que é isto? São instrumentos muito parecidos com aquele motorzinho de dentista que se usa pra furar o dente e extrais a cárie, mas ao invés de movimentos rotatórios, as canetas que se usam na paleontologia realizam movimentos “pra frente e pra trás”. Mesmo assim, o material era difícil de ser preparado. Havia dias que após 8 horas de preparação, uma área “imensa” menor que uma moeda de um centavo era preparado!!! E não era só isso. Estas canetas pneumáticas possuem tamanhos e intensidades diferentes. Começou com uma de nível 1... ponteira quebrada. Nível 2... ponteira quebrada. Nível 3... ponta gasta em menos de um dia de trabalho. Nível 4, usado em materiais grandes, como fêmur de titanossauro... começou a funcionar. Só que as ponteiras duravam cerca de 15 dias e tinha o risco de quebrar todo o material por conta do alto impacto, isso sem dizer que cada ponteira desta custa cerca de 60 dólares!
            Durante três anos e meio, os fósseis iam sendo preparados e estudados concomitantemente. Até que no final do ano passado, com dados suficientes já em mão, os paleontólogos decidem publicar um artigo com os resultados deste trabalho (França et al., 2011). O material achado se tratava de 9 indivíduos amontoados uns sobres os outros, com três crânio bem preservados, e, à priori, todos pertencentes à uma nova espécie: Decuriasuchus quartacolonia.
FIGURA 3 – Crânios preservados de Decuriasuchus quartacolonia. Dois crânios foram preservados sobrepostos (acima) e o outro um pouco mais isolado (abaixo).

Os animais desta espécie eram carnívoros (possuíam dentes pontiagudos com margens serrilhadas), quadrúpedes e mediam cerca de 2,5 metros de comprimento.
FIGURA 4 – Reconstituição de Decuriasuchus quartacolonia.

Faziam parte um grupo chamado Rauisuchia. O que é isto? Hein?? Senta que lá vem a sistemática... Entre todos os animais vivos atualmente, aves e crocodilos são os mais aparentados entre si, formando um grupo denominado de Archosauria. Estes dois grupos atuais são somente um resquício da Biodiversidade do passado (clichê paleontológico! Hehehe). Os arcossauros se diversificaram durante o período triássico em duas grandes linhagens (Brusatte et al., 2010): uma pró-aviana, denominada de Ornithosuchia e da qual faz parte também os dinossauros (sim, ave é um dinossauro!!!); e outra pró-crocodiliana, denominada de Pseudosuchia e da qual faz parte vários grupos fósseis que se extinguiram no final do período triássico, sendo os crocodilomorfos os únicos sobreviventes. Destes grupos que se extinguiram estão os fitossauros (arcossauros aquáticos, com focinhos alongados), aetossauros (arcossauros encouraçados, possuindo placas ósseas de formatos diversos em suas costas), os ornitossuquídeos (arcossauros com crânios esquisitos, com a mandíbula reduzida em comprimento e a ponta do focinho voltada pra baixo) e os rauissúquios, ou Rauisuchia, do qual esta nova espécie faz parte.
FIGURA 5 – Cladograma representando o parentesco entre os grupos de Archosauria.

Este grupo era considerado até a década de 90 composto por grandes predadores topo de cadeia, quadrúpedes e que tinham morfologia distinta da bacia que permitia uma locomoção mais rápida. Entre os maiores da sua época nos ecossistemas terrestres, podiam medir até 9 metros de comprimento. Existe um crânio na UFRGS de aproximadamente um metro de comprimento, pertencente à espécie Prestosuchus chiniquensis (Barberena, 1978). Durante a década de 90, pesquisadores encontraram animais deste grupo que são bípedes, desprovidos de dentes e provavelmente portando bicos córneos, como nas tartarugas, como Effigia okeeffeae (Nesbitt & Norell, 2006) e Shuvosaurus inexpectatus (Chatterjee, 1993). Mais recentemente, há indícios fortes de que uma das espécies, Qianosuchus mixtus (Li et al., 2006), possuía hábito aquático. Ou seja, Rauisuchia representa um grupo muito mais diverso do que se aparentava até então.
FIGURA 6 – Exemplos de espécies de Rauisuchia, apresentando a diversidade de tamanho e hábitos.

Entre estas novidades está Decuriasuchus. Foram encontrados 10 indivíduos naquele afloramento no município de Dona Francisca, sendo que 9 deles estavam praticamente uns sobre os outros. Como seus esqueletos estão praticamente articulados, pode-se afirmar que eles estavam próximos uns dos outros antes de suas mortes, demonstrando um comportamento social mais desenvolvido do que se pensava: grandes répteis predadores tendem a viverem de forma mais isolada e não em “comunidade”. Este aglomeração de indivíduos pode ter causa e consequências diversas. Estudos apontam que aquela região no triássico era uma planície de inundação, com períodos de secas drásticas e outros de chuvas intensas (Da Rosa, 2005), o que pode ter servido de “refúgio” para estes animais.
FIGURA 7 – Imagem de uma planície de inundação atual com paisagem similar à considerada para a localidade aonde Decuriasuchus foi coletado.

É comum espécies de animais predadores de porte menor, caso do dinossauro Velociraptor, viverem em bando para defesa de predadores maiores ou ainda para caçar em bandos, o que poderia ter acontecido com Decuriasuchus. A verdade é que a resposta dos porquês destes indivíduos estarem juntos é pura especulação, mas é fato que eles viviam próximos uns dos outros. Paralelamente, outros aglomerados da mesma espécie em arcossauros, embora raros, são mais comum em dinossauros jurássico, sendo um comportamento social desenvolvido descrito em vários grupos de dinossauros. No período triássico, afloramentos possuindo vários indivíduos da mesma espécie são mais escassos, sendo descritos em dinossauro terópode Coelophysis bauri do novo México, EUA (Schwartz & Gillette, 1994), em dinossauro sauropodomorfo basal Plateosaurus da europa central (Sander, 1992), e no pseudossúquio Aetosaurus ferratus da Alemanha (Schoch, 2007). Todos estes são datados do Triássico Superior (Noriano-Rhaetiano, aproximadamente entre 220 e 205 milhões de anos atrás). As rochas do afloramento “posto”, aonde foram encontrados Decuriasuchus, são de aproximadamente 235-240 milhões de anos atrás, podendo-se dizer que esta nova espécie é o registro mais antigo de comportamento gregário em arcossauros.
FIGURA 8 – Exemplos de preservação com vários indivíduos em Archosauria. Acima, Aetosaurus ferratus, um Aetosauria (Pseudosuchia) do Triássico Superior da Alemanha; abaixo, Coleophysis bauri, um Dinosauria (Ornithosuchia) do Triássico superior dos Estados Unidos.

            Sobre o nome desta nova espécie, há algumas curiosidades. Decuria/suchus: o termo “decuria” faz referência à unidade do exército romano constituída por 10 soldados, como no caso dos 10 indivíduos achados no afloramento e também em referência à uma estrutura protuberante que existe no osso Nasal compartilhado por algumas espécies do grupo Rauisuchia que foi descrito por Romer (1971) como sendo o focinho tipo nariz romano; já “suchus” é um termo grego que se refere ao deus egípcio com cabeça de crocodilo, fazendo referência ao posicionamento da espécie na linhagem pró-crocodiliana. O nome específico “quartacolonia” refere-se à região no interior do estado do Rio Grande denominada de Quarta Colônia por ser a quarta região à abrigar os imigrantes italianos no século passado e da qual faz parte o município de Dona Francisca, aonde foram coletados os fósseis.

  
Citações Bibliográficas:

Barberena, M. C. 1978. A huge thecodont skull from the Triassic of Brazil. Pesquisas, 7, 111–129.
Brusatte S, Benton MJ, Desojo J, Langer MC (2010) The higher-level phylogeny of Archosauria (Tetrapoda: Diapsida). J Syst Paleontol 8:3–47.
Chatterjee, S. 1993. Shuvosaurus, a new theropod. National Geographic Research and Exploration, 9, 274–285.
Da Rosa AAS (2005) Paleoalterações de depósitos sedimentares de planícies aluviais do Triássico Médio a superior do sul do Brasil: caracterização, análise estratigráfica e preservação fossilífera. Tese de Doutorado. UNISINOS, São Leopoldo.
França MAG de, Ferigolo J, Langer MC (2011). Associated skeletons of a new middle Triassic "Rauisuchia" from Brazil. Naturwissenschaften 98 (5): 389–395. doi:10.1007/s00114-011-0782-3.
Li C, Wu X-C, Cheng Y-N, Sato T, Wang L (2006) An unusual archosaurian from the marine Triassic of China. Naturwissenschaften 93:200–206.
Nesbitt SJ, Norell MA (2006) Extreme convergence in the body plans of an early suchian (Archosauria) and ornithomimid dinosaurs (Theropoda). Proc R Soc B Biol Sci 273(1590):1045–1048.
Romer AS (1971) The Chañares (Argentina) Triassic reptile fauna. VIII. A fragmentary skull of a large thecodont, Luperosuchus fractus. Breviora 373:1–8.
Sander PM (1992) The Norian Plateosaurus bonebeds of central Europe and their taphonomy. Palaeogeogr Palaeoclimatol Palaeoecol 93:255–299.
Schoch RR (2007) Osteology of the small archosaur Aetosaurus from the Upper Triassic of Germany. Neues Jahrbuch für Geologie und Paläontologie. Abhandlungen 246(1):1–35.
Schwartz HL, Gillette DD (1994) Geology and taphonomy of the Coelophysis quarry, Upper Triassic Chinle Formation, Ghost Ranch, New Mexico. Journal of Palaentology 68:1118–1130.

Sobre o autor:



Marco Aurélio de Gallo França é paleontólogo brasileiro, focado atualmente em pesquisas com arcossauros basais, mas já trabalhou com outros grupos fósseis, como tartarugas e dinossauros. Está no doutorado na Bologia Comparada (FFCLRP-USP/Ribeirão Preto), com a orientação de Max Cardoso Langer. Gosta de cerveja, principalmente acompanhada de bons amigos. Para aliviar a tensão, nas horas vagas dedica-se ao samba e a MPB, mas como hobby. Lattes.




quinta-feira, 26 de maio de 2011

Por aí...



O curso ‘Botânica no Inverno’ é uma iniciativa dos alunos de pós-graduação do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), destinado a alunos de graduação e recém-graduados que tenham interesse em Botânica, podendo ser provenientes de instituições voltadas as diversas áreas do conhecimento.


Mais informações: http://botanicanoinverno.ib.usp.br/

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Na mídia

Agência Fapesp divulga:


Especiais

Coleções dispersas

Em carta publicada na Nature, biólogos da USP de Ribeirão Preto defendem institucionalização de coleções biológicas. Com apoio da FAPESP para organizar seu acervo, eles projetam novo Museu da Biodiversidade (Foto: Australian Museum)
02/05/2011
Por Fábio de Castro
Agência FAPESP – As coleções biológicas existentes nas universidades, em geral, não estão incluídas no orçamento permanente das instituições. Por conta disso, as limitações de recursos financeiros ameaçam esses acervos de importância capital para o avanço do conhecimento sobre a biodiversidade.
Essa preocupação foi levantada por um grupo de pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP), em uma carta publicada na edição de 21 de abril da revista Nature.
Na carta, Flávio Bockmann, do Departamento de Biologia da FFCLRP-USP, e colegas anunciam que estão reunindo suas coleções dispersas em diversos laboratórios para formar um Museu da Biodiversidade. A iniciativa teve apoio da FAPESP a partir de um projeto selecionado naChamada de Apoio à Infraestrutura de Pesquisa – Centros Depositários de Informações, Documentos e/ou Coleções Biológicas .
Segundo os autores do texto, as universidades com coleções científicas bem estruturadas fornecem um ambiente muito rico para o treinamento de biólogos que, posteriormente, serão os responsáveis por lidar com as questões mais prementes relacionadas à conservação da biodiversidade.
Bockmann conta que o imenso volume de material biológico armazenado em inúmeras outras universidades brasileiras está aumentando exponencialmente à medida que avança a expansão da educação superior no país.
“É fundamental que outras universidades brasileiras tomem iniciativas semelhantes, consolidando suas coleções e coordenando esforços na pesquisa sobre a biodiversidade para contribuir com as políticas de conservação e gestão”, disse à Agência FAPESP.
Bockmann destaca que geralmente os grandes museus têm origem em coleções científicas que, no início, são acumuladas por pesquisadores nas universidades. Mas, para que se transformem em museu, é preciso que haja investimento que possibilite a sua institucionalização. Caso contrário, o material permanece disperso e muitas vezes só não se perde por esforço dos próprios pesquisadores.
“Hoje, acumulamos um volume muito grande de material científico em coleções que estão em diferentes graus de conservação e manutenção. O problema é que a responsabilidade por esses acervos não está definida nos regimentos das universidades”, explicou.
O problema das coleções biológicas, segundo Bockmann, tem escala mundial. Isso motivou o grupo de pesquisadores a divulgar a iniciativa do Museu de Biodiversidade na Nature. No Brasil, o problema se acentua ainda mais, já que o país detém a maior biodiversidade do mundo.
“Temos grandes coleções espalhadas por universidades de todo o país, muitas vezes sem os devidos cuidados. Além disso, atualmente qualquer estudo de avaliação ambiental no país exige que todo o material coletado seja tombado em coleções científicas. No nosso caso, recebemos material biológico continuamente e a tendência é que o acervo cresça exponencialmente”, afirmou.
Segundo Bockmann, o apoio financeiro da FAPESP permitiu que a FFCLRP-USP desse início ao processo de institucionalização e organização de suas coleções. “A iniciativa da FAPESP de lançar uma chamada especificamente voltada para a gestão de coleções biológicas é exemplar. Nossa expectativa é que o projeto do museu crie um efeito multiplicador, incentivando outras iniciativas semelhantes”, disse.
A manutenção das coleções, segundo Bockmann, exige investimentos de caráter organizacional – incluindo a compra de servidores e a implantação de softwares gestores dos acervos –, além de recursos para a estrutura física.
“Estamos utilizando os recursos, por exemplo, para montar a infraestrutura de armazenamento, incluindo estantes compactadoras modulares e para adquirir um equipamento de raio X digital, muito utilizado na área de vertebrados. Trata-se de uma verba relativamente modesta em relação aos enormes resultados que poderá trazer”, afirmou.
De acordo com o pesquisador, a previsão é que sejam investidos R$ 20 milhões para que a primeira parte do museu seja completada e se torne plenamente operacional. O orçamento total está estimado em R$ 70 milhões.
As coleções da FFCLRP-USP, segundo Bockmann, incluem, por exemplo, um vasto herbário e um importante acervo de peixes, répteis, crustáceos, de paleontologia e de entomologia, além da maior coleção do mundo de abelhas neotropicais sem ferrão. “São mais de dez coleções. Nossa estimativa é que o acervo tenha, no momento, mais de 600 mil exemplares. Mas esse número cresce continuamente”, disse.
Essas coleções, segundo Bockmann, formarão a base para o acervo expositivo do museu. “Essa é uma parte importante do projeto, porque não queremos que o museu seja apenas um pretexto para guardar as coleções para pesquisa. Queremos consolidar um ambiente de pesquisa de alto padrão sobre a biodiversidade e fazer uma exposição pública de nível internacional sobre o tema. O objetivo é ambicioso: queremos um museu que seja um polo de atração em âmbito nacional e não apenas regional”, afirmou.
Mais informações: www.nature.com 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Por aí...


Mais uma vez os alunos do Programa de Pós-graduação em Biologia Comparada da FFCLRP-USP se organizaram e, no período de 26 a 29 de julho de 2011, será realizado o 5º Encontro da Biologia Comparada com o tema “A diversidade de formas no tempo e no espaço”. O principal objetivo do encontro é mobilizar estudantes, professores e profissionais da Biologia em discussões sobre mudanças observadas nas diferentes formas de vida nas dimensões temporal (passado, presente e futuro) e espacial (distribuição geográfica), além de manter os objetivos dos encontros anteriores, que são promover a integração entre os alunos do Programa de Pós-graduação e a comunidade acadêmica e divulgar as linhas de pesquisa desenvolvidas dentro do programa.


5° Encontro da Biologia Comparada
Tema: "A diversidade de formas no tempo e no espaço"
Quando: 26 a 29 de julho de 2011
Onde: FFCLRP - USP de Ribeirão Preto
Custo: R$ 25,00
Envio de Resumos: até 17 de junho de 2011
Mais informações: info.ebc.rp@gmail.com
ou pelo site: http://sites.ffclrp.usp.br/ebc/

sexta-feira, 11 de março de 2011

Ciência Histórica e Ciência Experimental: Sobre Sistemática e Evolução


Por Leandro Assis

Ciência é um processo de investigação e descoberta, fundamentado num arcabouço grandioso de conceitos, métodos, teorias e observações. Podemos dividir a ciência em experimental e histórica. Na ciência experimental, as condições de um certo experimento são geralmente controladas. Os resultados obtidos são a base para formular predições, que, quando sujeitas a testes sucessivos, podem ser refutadas ou não. Dessa forma, o cientista experimental tem maior controle de sua análise, desde o presente até o futuro. No caso da ciência histórica, o cientista não consegue controlar facilmente as condições de análise, uma vez que investiga eventos passados, não mais observáveis, pois esses aconteceram há centenas, milhares, milhões ou bilhões de anos. Como exemplos, destacam-se a extinção dos dinossauros (exceto aves), a origem das angiospermas e o Big-Bang. Para descobrir tais eventos, o cientista investiga um conjunto de evidências (dados) ou traços históricos potencialmente relacionados aos próprios eventos. Ou seja, o cientista histórico não faz predições, ele realiza uma inferência, quando um conjunto de evidências ou traços históricos é usado para confirmar um evento já ocorrido.
A integração entre sistemática e evolução insere um componente histórico na pesquisa da biodiversidade. Nesse contexto, o papel do sistemata ou do biólogo evolutivo é descobrir como as relações de parentesco (genealógicas ou filogenéticas) da biodiversidade aconteceram ao longo de sua evolução. Ou seja, o sistemata procura descobrir e explicar o padrão evolutivo da árvore da vida. Ele investiga, por exemplo, quem, entre o abacate, a laranja e a maçã, são mais próximos genealogicamente ou filogeneticamente. Com base na comparação de características morfológicas e genéticas  e na utilização de certos métodos e modelos matemáticos, os sistematas têm confirmado que a maçã e a laranja possuem um ancestral comum mais recente em relação ao abacate. Mas a laranja, a maçã e o abacate possuem um ancestral comum mais recente em relação à samambaia.
Existem diversos problemas dentro da ciência biológica histórica com relação à descoberta do padrão evolutivo da árvore da vida. As espécies que vivem hoje são apenas uma pequena parte de toda biodiversidade que existiu na Terra ao longo de sua história. Dessa maneira, o trabalho do sistemata é bastante desafiador e se compararia a montar um quebra-cabeça no qual várias peças (informações) estão faltando. A árvore da vida tem um padrão único. Esse é um fato histórico. Todavia, diferentes tipos de evidências (dados) ou traços históricos podem resultar em diferentes hipóteses. Como consequência, os sistematas podem formular diversas teorias sobre um mesmo mundo ou realidade evolutiva, o que explica as conflitantes classificações de um mesmo grupo de organismos.
Para entendermos a diferença entre ciência histórica e ciência experimental, então, é necessário entendermos a assimetria temporal dos eventos naturais. A ciência histórica usa as evidências que existem no presente para inferir eventos passados, enquanto a ciência experimental prevê eventos futuros. No entanto, tais relações podem se sobrepor. Certos pesquisadores acreditam que a análise experimental é científica, porque as observações podem ser criteriosamente controladas e testadas. Já no caso da análise histórica, onde as variáveis ambientais não podem ser facilmente controladas e os eventos não são observáveis, os críticos dizem que tal análise é frágil e imprecisa, portanto, não científica. No entanto, uma vez que entendemos a assimetria temporal dos eventos naturais e os tipos de evidência contemplados, tal consideração torna-se filosoficamente insustentável. As duas formas de análise, portanto, são genuinamente científicas.

Agradecimentos
Agradeço aos organizadores do blog ‘Ciência é...’, Lívia Pinheiro, Pedro Da Pos, Rafaela Falaschi, e também à Vanessa Roma pelos comentários e correções valiosos.


Sobre o autor
Leandro Cézanne de Souza Assis É sistemata filogenético, que busca a compreender e organizar a biodiversidade em constante transformação, desde os tempos mais remotos até os dias de hoje. Estuda em particular as lauráceas, plantas com flores (angiospermas), que agrupam o abacateiro, a cânfora, as canelas e o louro. Nas horas vagas, caça borboletas do gênero Vanessa, anda de ‘esqueite’ e vai ao cinema. Lattes.

Figuras e respectivos sites:

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

“Senta que lá vem história!”

Esse é um texto escrito a pedido do "CEB Informa" de fevereiro, o jornal do centro estudantil da Biologia da FFCLRP, USP. 

Por Mateus Henrique Santos

Todos nós alguma vez na nossa vida já ouvimos diversas histórias, sejam elas de ficção ou reais. Algumas histórias contam com uma boa narrativa, personagens interessantes e o desenrolar de eventos que os movem para além do seu cotidiano. Essa pode ser por muitas vezes chamada de “A jornada do Heroi” onde o personagem passa por momentos de aprendizagem e desafios que mudam sua vida. Se você leitor está achando essa conversa estranha para um texto sobre biologia, não se assuste, pois o que vou dizer em poucas linhas é como contar a história dos seres vivos sob uma abordagem biológica.
Sou biólogo, trabalho no Laboratório de Genética Evolutiva da Faculdade de Medicina do Departamento de Genética, que um belo dia se viu diante de pequenas moscas, as Drosophila buzzatii. Elas são repletas de pequenas manchas por todo o corpo e apresentam-se distribuídas ao longo de toda a América do Sul, sempre associadas a cactos, dos mais diversos gêneros, onde reproduzem, ovopositam, crescem e se alimentam. Partindo das palavras do Grande Pensador Profundo, da obra “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, do escritor Douglas N. Adams – “O importante é a pergunta” – assim, começamos então a nos perguntar coisas a respeito dessas moscas: Como elas chegaram à sua distribuição geográfica atual? Por que não as encontramos em alguns lugares? Existe diferença entre as moscas de diferentes lugares?, entre outras. Para responder a essas questões utilizamos a Filogeografia para mergulhar cada vez mais no mundo e história dessas moscas.
A Filogeografia é uma área do conhecimento nova, com pouco mais de 20 anos, sendo um ramo da Biogeografia que utiliza a informação genética associada à localização geográfica para inferir a história evolutiva de espécies e populações. Ela exige que tenhamos gostos um tanto quanto estranhos à maioria dos biólogos, como, por exemplo, um bom apreço pela estatística, certa dose de programação, uma boa noção de geografia e bastante curiosidade para “fuçar” nos mais diversos assuntos e temas, como meteorologia, ecologia, palinologia, paleontologia, sistemática filogenética e, claro, muita genética molecular. O filogeógrafo precisa ser um agregador do conhecimento, uma vez que esse ramo da biologia exige grande interação entre áreas, porém, nem sempre é o que acontece.
Mas voltemos à jornada do nosso heroi em questão, a D. buzzatii. Utilizando a filogeografia conseguimos traçar rotas de dispersão históricas, indo onde nenhuma Drosophila jamais foi; enfrentando terríveis mudanças climáticas e perigos inimagináveis para um ser tão pequeno até alcançar a distribuição atual, quebrando paradigmas e rompendo com antigas teorias. Essa é a história dessas moscas, contada a partir do material genético, sua distribuição geográfica e outras informações de diversos campos do conhecimento, indo de encontro da própria história da América do Sul. Se você se interessou e tem as habilidades para ser um filogeógrafo, um contador de histórias, então se prepare para um mundo de possibilidades, emoções e muito trabalho.

Sobre o autor:

Mateus Henrique Santos escolheu ser “Cientista” quando cursava o quarto ano do ensino fundamental, pelo menos foi o que respondeu quando lhe foi perguntado “O que quer ser quando crescer?”. A paixão pela biologia começou cedo, quando criança, após fazer as tarefas diárias parava em frente à televisão para assistir a série “Os bichos” da TV Cultura com apresentação de Marty Stouffer. Nerd assumido, sempre gostou de histórias de ficção e quadrinhos e os X-Men o levaram a optar pela área da genética e evolução. Cursou Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São Carlos. Concluiu o mestrado em Genética e Evolução pela UFSCar e está concluindo o doutorado em Genética pela FMRP-USP. Sua área de pesquisa é filogeografia e seu projeto de doutorado foi sobre a história evolutiva da espécie de moscas Drosophila buzzatii. Interesses gerais incluem genética, evolução, estatística, biogeografia, histórias de fantasia, ficção científica, quadrinhos e arte em geral. Lattes.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

História da vida: o papel das coletas e coleções biológicas para a humanidade

Por Rafaela L. Falaschi e Lívia R. Pinheiro



             Esse ano que passou foi marcado, para a biologia brasileira, pelo trágico incêndio no Instituto Butantan, além da polêmica envolvendo o biólogo Louri Klehmann Júnior, que foi tratado como criminoso ambiental por ter cometido um erro. Muito desse absurdo se deve ao desconhecimento, ou conhecimento vago, que a sociedade tem de questões básicas relacionadas às ciências, aqui especificamente, às ciências biológicas.

Armadilha Malaise para coleta de dípteros

Ciência não é só para cientistas. Assim como política, economia, música e arte, ciência também é – ou deveria ser – assunto de domínio público. Deveria estar nas rodas de conversa, ser mais uma fonte de conhecimento a ser aproveitada, mas estamos tão acostumados com a mitificação do cientista como um gênio de jaleco e da ciência como curiosidade (ou quase um divertimento), que é pequena a participação da população em geral. Os próprios cientistas também são culpados por esta situação, embora o nível de especialização a que chegamos possa de fato ser reconhecido como um obstáculo a ser superado para a divulgação científica.
Quando a ciência é tida como inatingível, as opiniões dos cidadãos ao seu respeito ficam presas à opinião do cientista que fala mais alto, ou seja, a um argumento de autoridade. Os casos em que opiniões divergentes têm igual destaque são relativamente raros, especialmente se existe um interesse da mídia em privilegiar uma delas. A única forma de nos livrarmos de opiniões de terceiros e formar nossa própria é compreendendo minimamente os elementos envolvidos nas polêmicas, e isto só se faz com divulgação científica apropriada. É com o intuito de fornecer tais subsídios que debateremos a seguir as relações entre o incêndio da coleção do Butantan, a polêmica envolvendo Louri Klehmann Júnior e a ignorância científica.

Comecemos com Louri, tratado pela mídia, pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAPar) e pelo presidente do Conselho Regional de Biologia do Paraná como um criminoso ambiental por ter atirado, com licença dos órgãos competentes estadual e federal para fazê-lo, em duas aves muitíssimo semelhantes às que tinha autorização para matar.
Todo biólogo que precisa obter espécimes para seu estudo passa por uma verdadeira via crucis até conseguir sua autorização de coleta. A burocracia e o tempo de espera até a obtenção da licença é muito variável, dependendo do grupo de interesse (quem estuda mosquitos obtém a sua com maior facilidade que quem estuda mamíferos, por exemplo) e de onde se pretende coletar (a autorização para coleta em unidades de conservação é mais complicada que para áreas não protegidas).

Apesar de fazer todo o sentido limitar o número de espécimes coletados, ainda mais se o grupo se reproduz pouco, como é o caso de muitos mamíferos e das aves, ou se o local que se deseja estudar é área de proteção ambiental, a burocracia que envolve pedidos de autorização de coleta nem sempre é condizente com as diferentes realidades enfrentadas por diferentes biólogos.

Considerando todas as espécies de seres vivos, são raras as coletas que capturam mais que uma ninhada de uma fêmea de uma população[1] por vez. É razoável esperar que, de todos, sejam biólogos os mais indicados a garantir que uma coleta não ameace a viabilidade da população da(s) espécie(s) de seu interesse. Que interesse teria o biólogo de exterminar o grupo ao qual dedica seu tempo de estudo? Ou mesmo de matar sem necessidade?
Louri tinha autorização para coletar exemplares de duas espécies de íbis de plumagem escura, e foi em dois deles que mirou. Para seu azar não eram íbis, mas guarás jovens, cuja pujante plumagem vermelha só aparece depois de adultos. Também para seu azar, o guará é tido como espécie vulnerável no Paraná. Uma vez descoberto o erro de Louri e noticiado de forma a fazê-lo parecer um pesquisador negligente que caça aves por capricho, a opinião pública o considerou culpado de ambas as acusações. Não havia motivo para não fazê-lo, se era o que os jornais incitavam e se o IAPar e o presidente do CRBio da região também o haviam condenado.

Mas não existe algo estranho por trás disso tudo? O que ganharia Louri atirando em uma espécie vulnerável que não é a que lhe interessa, sendo que os espécimes ficariam, de qualquer forma, guardados no museu onde ele realiza seu estudo?
Quase todo biólogo de campo já se deparou com a aversão generalizada à idéia de coletar. Esta antipatia pode se tornar um verdadeiro horror, de acordo com o grupo que se pretende coletar. Ao mesmo tempo em que é difícil ouvir protestos contra a coleta de microorganismos, plantas, lesmas, carrapatos ou grupos que nem nome popular tem (ex.: Priapula, Diplura, Tardigrada[2]), o horror pode se transformar em ameaças se estivermos falando de aves ou mamíferos. “Coitadinho do bichinho, deixa ele lá!” é uma exclamação muito comum, às vezes substituída por sua forma mais autoritária, dita às vezes em tom agressivo “Você não vai matar esse bicho!”. Elas revelam a profundidade da ignorância que cerca a idéia que as pessoas têm das coletas científicas.

Parece razoável supor que a aversão das pessoas à coleta derive da emergência do conceito de responsabilidade ambiental. Seria contraditório pregar o respeito ao meio ambiente e trabalhar com uma profissão associada a isto, e ao mesmo tempo ir ao campo especificamente para coletar – ou matar, ou mesmo assassinar, como preferem alguns – animais indefesos. “Por que ainda não desenvolveram uma maneira de estudar a biodiversidade sem precisar matar mais os animais?”, perguntam os mais indignados. “É mesmo necessário coletar?”, questionam os mais ponderados.
E a resposta é sim, é necessário coletar. Vai ser enquanto houver perguntas que possamos fazer sobre a biodiversidade e, é claro, enquanto houver biodiversidade. Muitas perguntas importantes para a biologia simplesmente não podem ser respondidas somente por meio do estudo de fotografias, vídeos, pegadas, sons, ou com animais vivos em cativeiro por tempo indeterminado. Questões taxonômicas, sistemáticas, evolutivas e biogeográficas, por exemplo, muitas vezes exigem que se trabalhe com espécimes mortos,  por vezes com um grande número de exemplares. Isto também não é contornável, porque são perguntas sobre populações, e só podem ser respondidas com uma ampla amostragem populacional.

Coletar não é, portanto, opcional para muitas áreas da biologia. E nem é a coleta uma ciência exata: os métodos variam de acordo com o que se pretende capturar, e nem sempre vem somente o que se deseja. Seja a coleta passiva (com armadilhas) ou ativa, corre-se o risco de coletar por engano ou acidente algo não planejado. É algo que acontece a todo momento, e muitas vezes independe da experiência do coletor, mas ocorre devido ao desenho da armadilha ou de condições desfavoráveis de caça, como foi o caso de Louri: se já é difícil distinguir jovens guarás de íbis de plumagem escura no laboratório, imagine no mato, em dia nublado e nevoento, à distância necessária para não espantar os pássaros.

Gavetas entomológicas - INPA
Se as coletas não são prescindíveis como muitos gostariam que fossem, restam duas alternativas – continuar protestando contra a realização do nosso trabalho ou compreender sua importância. Para aqueles tentados a dar uma chance à segunda, passemos ao incêndio na coleção do Butantan e ao seu significado.
Ao contrário da polêmica sobre os guarás de Louri, o incêndio trouxe muitas e diversas reações. Mas a grande (e triste) indagação era “se ninguém se feriu por que tanta tristeza por causa de bicho morto? É só pegar mais!”. O laboratório de morfologia e evolução Diptera da USP de Ribeirão Preto recebeu ofertas de aranhas e escorpiões para ajudar a recuperar a coleção do Butantan. Por mais positivo que seja saber que algumas pessoas querem ajudar em algo que consideram tão distante de seu cotidiano, estas ofertas alertam para o total desconhecimento dessas pessoas sobre o que é uma coleção biológica e o que ela representa.
            Coletas e coleções são intrinsecamente ligadas, sendo as últimas o destino final de todo o material reunido em coletas científicas. As coleções são constituídas por conjuntos de organismos (animais, plantas, fungos) coletados e preparados de modo que permaneçam em condições de estudo por centenas de anos.
Diferentes grupos de seres vivos apresentam diferentes necessidades quanto à sua conservação, sendo os meios mais comuns as exsicatas[3], a via úmida[4], inclusão em resina, montagem em lâminas, em alfinetes e a taxidermia. A despeito do modo de conservação, todos os espécimes devem trazer consigo informações sobre a localidade, altitude em relação ao nível do mar, o período do ano em que foram coletados, coletores e outras informações que o coletor julgar relevantes.
Assim, as coleções compreendem um acervo de espécimes que funciona como uma amostra da diversidade existente, a partir da qual podem ser feitas inferências sobre a diversidade biológica. A composição de cada coleção depende das localidades de coleta que os pesquisadores que nela trabalham (e trabalharam) costumam freqüentar, a freqüência com que vão a campo e das condições de acondicionamento dos espécimes. É comum que grandes instituições comprem coleções de instituições menores, de pesquisadores autônomos, ou mesmo de amadores. Cada coleção tem, assim, sua história, composta pelas histórias de cada coleção incorporada a ela e de cada um que trabalhou para formá-la. Não é muito incomum encontrarmos, por exemplo, espécimes que foram coletados em áreas que já não existem mais, seja devido à urbanização ou à destruição do habitat para dar lugar a plantações ou pastagens.
Existe ainda uma outra razão para qualificarmos como absurdo o que aconteceu à coleção do Butantan – a presença de tipos e o risco a que ficaram expostos com o incêndio. Tipo é o espécime que carrega o nome de uma dada espécie. Quando quem descreve uma espécie designa um único indivíduo para carregar o nome daquela espécie, ele é o holótipo. Mas há casos em que mais de um espécime carrega o nome da espécie, e nestes temos não um holótipo, mas dois ou mais parátipos. Mas o que significa exatamente carregar o nome? Imagine uma pesquisadora que, depois de muito trabalho, descobriu que uma espécie de cobra que coletou na caatinga é de fato desconhecida para a ciência. Ela possui somente um indivíduo, mas como se trata inequivocamente de uma espécie nova, ela a descreve com base neste espécime único mesmo. Agora, o espécime – neste caso o holótipo – precisa ser guardado em alguma coleção científica, para que esteja disponível para outros pesquisadores. A pesquisadora resolve depositá-lo no Butantan. Assim, se algum dia alguém coletar uma cobra que se suspeite pertencer à mesma espécie daquela, deve consultar a descrição da espécie e, se possível, o tipo, porque é ele que carrega o nome daquela espécie. Supondo que o tipo tivesse sido destruído pelo incêndio, não haveria com o que comparar o novo espécime, exceto pelas informações disponíveis na descrição da espécie, o que em muitos casos não é suficiente para uma identificação inequívoca da espécie.

Triagem de pequenos insetos

É por isso que, por mais que seja possível recompor de certa forma o acervo da coleção do Instituto Butantan, isto não vai ser suficiente. Com o incêndio perdemos parte de uma coleção que teve a característica ímpar de ter sido formada com a ajuda de anônimos que traziam serpentes e outros animais de todos os cantos do país.
É isto o que o ex-diretor do Butantan falhou em reconhecer em comparar a coleção do instituto a “uma bobagem medieval”, e o presidente do CRBio 7 não ficou muito longe ao tratar coletas científicas como “desnecessárias”. Que tenhamos tido algum sucesso em mostrar aos leitores que isto não é verdade!


[1] População é um grupo de indivíduos de uma espécie que vive em uma dada região geográfica.
[2] Acho que teríamos que colocar fotinhos deles
[3] Usadas nas coleções botânicas.
[4] Geralmente álcool a 70%, mas as concentrações podem variar; são também utilizados formaldeído e formalina para alguns grupos.

Fotos: Arquivo pessoal.