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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Na mídia

Agência Fapesp divulga:


Especiais

Coleções dispersas

Em carta publicada na Nature, biólogos da USP de Ribeirão Preto defendem institucionalização de coleções biológicas. Com apoio da FAPESP para organizar seu acervo, eles projetam novo Museu da Biodiversidade (Foto: Australian Museum)
02/05/2011
Por Fábio de Castro
Agência FAPESP – As coleções biológicas existentes nas universidades, em geral, não estão incluídas no orçamento permanente das instituições. Por conta disso, as limitações de recursos financeiros ameaçam esses acervos de importância capital para o avanço do conhecimento sobre a biodiversidade.
Essa preocupação foi levantada por um grupo de pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP), em uma carta publicada na edição de 21 de abril da revista Nature.
Na carta, Flávio Bockmann, do Departamento de Biologia da FFCLRP-USP, e colegas anunciam que estão reunindo suas coleções dispersas em diversos laboratórios para formar um Museu da Biodiversidade. A iniciativa teve apoio da FAPESP a partir de um projeto selecionado naChamada de Apoio à Infraestrutura de Pesquisa – Centros Depositários de Informações, Documentos e/ou Coleções Biológicas .
Segundo os autores do texto, as universidades com coleções científicas bem estruturadas fornecem um ambiente muito rico para o treinamento de biólogos que, posteriormente, serão os responsáveis por lidar com as questões mais prementes relacionadas à conservação da biodiversidade.
Bockmann conta que o imenso volume de material biológico armazenado em inúmeras outras universidades brasileiras está aumentando exponencialmente à medida que avança a expansão da educação superior no país.
“É fundamental que outras universidades brasileiras tomem iniciativas semelhantes, consolidando suas coleções e coordenando esforços na pesquisa sobre a biodiversidade para contribuir com as políticas de conservação e gestão”, disse à Agência FAPESP.
Bockmann destaca que geralmente os grandes museus têm origem em coleções científicas que, no início, são acumuladas por pesquisadores nas universidades. Mas, para que se transformem em museu, é preciso que haja investimento que possibilite a sua institucionalização. Caso contrário, o material permanece disperso e muitas vezes só não se perde por esforço dos próprios pesquisadores.
“Hoje, acumulamos um volume muito grande de material científico em coleções que estão em diferentes graus de conservação e manutenção. O problema é que a responsabilidade por esses acervos não está definida nos regimentos das universidades”, explicou.
O problema das coleções biológicas, segundo Bockmann, tem escala mundial. Isso motivou o grupo de pesquisadores a divulgar a iniciativa do Museu de Biodiversidade na Nature. No Brasil, o problema se acentua ainda mais, já que o país detém a maior biodiversidade do mundo.
“Temos grandes coleções espalhadas por universidades de todo o país, muitas vezes sem os devidos cuidados. Além disso, atualmente qualquer estudo de avaliação ambiental no país exige que todo o material coletado seja tombado em coleções científicas. No nosso caso, recebemos material biológico continuamente e a tendência é que o acervo cresça exponencialmente”, afirmou.
Segundo Bockmann, o apoio financeiro da FAPESP permitiu que a FFCLRP-USP desse início ao processo de institucionalização e organização de suas coleções. “A iniciativa da FAPESP de lançar uma chamada especificamente voltada para a gestão de coleções biológicas é exemplar. Nossa expectativa é que o projeto do museu crie um efeito multiplicador, incentivando outras iniciativas semelhantes”, disse.
A manutenção das coleções, segundo Bockmann, exige investimentos de caráter organizacional – incluindo a compra de servidores e a implantação de softwares gestores dos acervos –, além de recursos para a estrutura física.
“Estamos utilizando os recursos, por exemplo, para montar a infraestrutura de armazenamento, incluindo estantes compactadoras modulares e para adquirir um equipamento de raio X digital, muito utilizado na área de vertebrados. Trata-se de uma verba relativamente modesta em relação aos enormes resultados que poderá trazer”, afirmou.
De acordo com o pesquisador, a previsão é que sejam investidos R$ 20 milhões para que a primeira parte do museu seja completada e se torne plenamente operacional. O orçamento total está estimado em R$ 70 milhões.
As coleções da FFCLRP-USP, segundo Bockmann, incluem, por exemplo, um vasto herbário e um importante acervo de peixes, répteis, crustáceos, de paleontologia e de entomologia, além da maior coleção do mundo de abelhas neotropicais sem ferrão. “São mais de dez coleções. Nossa estimativa é que o acervo tenha, no momento, mais de 600 mil exemplares. Mas esse número cresce continuamente”, disse.
Essas coleções, segundo Bockmann, formarão a base para o acervo expositivo do museu. “Essa é uma parte importante do projeto, porque não queremos que o museu seja apenas um pretexto para guardar as coleções para pesquisa. Queremos consolidar um ambiente de pesquisa de alto padrão sobre a biodiversidade e fazer uma exposição pública de nível internacional sobre o tema. O objetivo é ambicioso: queremos um museu que seja um polo de atração em âmbito nacional e não apenas regional”, afirmou.
Mais informações: www.nature.com 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

História da vida: o papel das coletas e coleções biológicas para a humanidade

Por Rafaela L. Falaschi e Lívia R. Pinheiro



             Esse ano que passou foi marcado, para a biologia brasileira, pelo trágico incêndio no Instituto Butantan, além da polêmica envolvendo o biólogo Louri Klehmann Júnior, que foi tratado como criminoso ambiental por ter cometido um erro. Muito desse absurdo se deve ao desconhecimento, ou conhecimento vago, que a sociedade tem de questões básicas relacionadas às ciências, aqui especificamente, às ciências biológicas.

Armadilha Malaise para coleta de dípteros

Ciência não é só para cientistas. Assim como política, economia, música e arte, ciência também é – ou deveria ser – assunto de domínio público. Deveria estar nas rodas de conversa, ser mais uma fonte de conhecimento a ser aproveitada, mas estamos tão acostumados com a mitificação do cientista como um gênio de jaleco e da ciência como curiosidade (ou quase um divertimento), que é pequena a participação da população em geral. Os próprios cientistas também são culpados por esta situação, embora o nível de especialização a que chegamos possa de fato ser reconhecido como um obstáculo a ser superado para a divulgação científica.
Quando a ciência é tida como inatingível, as opiniões dos cidadãos ao seu respeito ficam presas à opinião do cientista que fala mais alto, ou seja, a um argumento de autoridade. Os casos em que opiniões divergentes têm igual destaque são relativamente raros, especialmente se existe um interesse da mídia em privilegiar uma delas. A única forma de nos livrarmos de opiniões de terceiros e formar nossa própria é compreendendo minimamente os elementos envolvidos nas polêmicas, e isto só se faz com divulgação científica apropriada. É com o intuito de fornecer tais subsídios que debateremos a seguir as relações entre o incêndio da coleção do Butantan, a polêmica envolvendo Louri Klehmann Júnior e a ignorância científica.

Comecemos com Louri, tratado pela mídia, pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAPar) e pelo presidente do Conselho Regional de Biologia do Paraná como um criminoso ambiental por ter atirado, com licença dos órgãos competentes estadual e federal para fazê-lo, em duas aves muitíssimo semelhantes às que tinha autorização para matar.
Todo biólogo que precisa obter espécimes para seu estudo passa por uma verdadeira via crucis até conseguir sua autorização de coleta. A burocracia e o tempo de espera até a obtenção da licença é muito variável, dependendo do grupo de interesse (quem estuda mosquitos obtém a sua com maior facilidade que quem estuda mamíferos, por exemplo) e de onde se pretende coletar (a autorização para coleta em unidades de conservação é mais complicada que para áreas não protegidas).

Apesar de fazer todo o sentido limitar o número de espécimes coletados, ainda mais se o grupo se reproduz pouco, como é o caso de muitos mamíferos e das aves, ou se o local que se deseja estudar é área de proteção ambiental, a burocracia que envolve pedidos de autorização de coleta nem sempre é condizente com as diferentes realidades enfrentadas por diferentes biólogos.

Considerando todas as espécies de seres vivos, são raras as coletas que capturam mais que uma ninhada de uma fêmea de uma população[1] por vez. É razoável esperar que, de todos, sejam biólogos os mais indicados a garantir que uma coleta não ameace a viabilidade da população da(s) espécie(s) de seu interesse. Que interesse teria o biólogo de exterminar o grupo ao qual dedica seu tempo de estudo? Ou mesmo de matar sem necessidade?
Louri tinha autorização para coletar exemplares de duas espécies de íbis de plumagem escura, e foi em dois deles que mirou. Para seu azar não eram íbis, mas guarás jovens, cuja pujante plumagem vermelha só aparece depois de adultos. Também para seu azar, o guará é tido como espécie vulnerável no Paraná. Uma vez descoberto o erro de Louri e noticiado de forma a fazê-lo parecer um pesquisador negligente que caça aves por capricho, a opinião pública o considerou culpado de ambas as acusações. Não havia motivo para não fazê-lo, se era o que os jornais incitavam e se o IAPar e o presidente do CRBio da região também o haviam condenado.

Mas não existe algo estranho por trás disso tudo? O que ganharia Louri atirando em uma espécie vulnerável que não é a que lhe interessa, sendo que os espécimes ficariam, de qualquer forma, guardados no museu onde ele realiza seu estudo?
Quase todo biólogo de campo já se deparou com a aversão generalizada à idéia de coletar. Esta antipatia pode se tornar um verdadeiro horror, de acordo com o grupo que se pretende coletar. Ao mesmo tempo em que é difícil ouvir protestos contra a coleta de microorganismos, plantas, lesmas, carrapatos ou grupos que nem nome popular tem (ex.: Priapula, Diplura, Tardigrada[2]), o horror pode se transformar em ameaças se estivermos falando de aves ou mamíferos. “Coitadinho do bichinho, deixa ele lá!” é uma exclamação muito comum, às vezes substituída por sua forma mais autoritária, dita às vezes em tom agressivo “Você não vai matar esse bicho!”. Elas revelam a profundidade da ignorância que cerca a idéia que as pessoas têm das coletas científicas.

Parece razoável supor que a aversão das pessoas à coleta derive da emergência do conceito de responsabilidade ambiental. Seria contraditório pregar o respeito ao meio ambiente e trabalhar com uma profissão associada a isto, e ao mesmo tempo ir ao campo especificamente para coletar – ou matar, ou mesmo assassinar, como preferem alguns – animais indefesos. “Por que ainda não desenvolveram uma maneira de estudar a biodiversidade sem precisar matar mais os animais?”, perguntam os mais indignados. “É mesmo necessário coletar?”, questionam os mais ponderados.
E a resposta é sim, é necessário coletar. Vai ser enquanto houver perguntas que possamos fazer sobre a biodiversidade e, é claro, enquanto houver biodiversidade. Muitas perguntas importantes para a biologia simplesmente não podem ser respondidas somente por meio do estudo de fotografias, vídeos, pegadas, sons, ou com animais vivos em cativeiro por tempo indeterminado. Questões taxonômicas, sistemáticas, evolutivas e biogeográficas, por exemplo, muitas vezes exigem que se trabalhe com espécimes mortos,  por vezes com um grande número de exemplares. Isto também não é contornável, porque são perguntas sobre populações, e só podem ser respondidas com uma ampla amostragem populacional.

Coletar não é, portanto, opcional para muitas áreas da biologia. E nem é a coleta uma ciência exata: os métodos variam de acordo com o que se pretende capturar, e nem sempre vem somente o que se deseja. Seja a coleta passiva (com armadilhas) ou ativa, corre-se o risco de coletar por engano ou acidente algo não planejado. É algo que acontece a todo momento, e muitas vezes independe da experiência do coletor, mas ocorre devido ao desenho da armadilha ou de condições desfavoráveis de caça, como foi o caso de Louri: se já é difícil distinguir jovens guarás de íbis de plumagem escura no laboratório, imagine no mato, em dia nublado e nevoento, à distância necessária para não espantar os pássaros.

Gavetas entomológicas - INPA
Se as coletas não são prescindíveis como muitos gostariam que fossem, restam duas alternativas – continuar protestando contra a realização do nosso trabalho ou compreender sua importância. Para aqueles tentados a dar uma chance à segunda, passemos ao incêndio na coleção do Butantan e ao seu significado.
Ao contrário da polêmica sobre os guarás de Louri, o incêndio trouxe muitas e diversas reações. Mas a grande (e triste) indagação era “se ninguém se feriu por que tanta tristeza por causa de bicho morto? É só pegar mais!”. O laboratório de morfologia e evolução Diptera da USP de Ribeirão Preto recebeu ofertas de aranhas e escorpiões para ajudar a recuperar a coleção do Butantan. Por mais positivo que seja saber que algumas pessoas querem ajudar em algo que consideram tão distante de seu cotidiano, estas ofertas alertam para o total desconhecimento dessas pessoas sobre o que é uma coleção biológica e o que ela representa.
            Coletas e coleções são intrinsecamente ligadas, sendo as últimas o destino final de todo o material reunido em coletas científicas. As coleções são constituídas por conjuntos de organismos (animais, plantas, fungos) coletados e preparados de modo que permaneçam em condições de estudo por centenas de anos.
Diferentes grupos de seres vivos apresentam diferentes necessidades quanto à sua conservação, sendo os meios mais comuns as exsicatas[3], a via úmida[4], inclusão em resina, montagem em lâminas, em alfinetes e a taxidermia. A despeito do modo de conservação, todos os espécimes devem trazer consigo informações sobre a localidade, altitude em relação ao nível do mar, o período do ano em que foram coletados, coletores e outras informações que o coletor julgar relevantes.
Assim, as coleções compreendem um acervo de espécimes que funciona como uma amostra da diversidade existente, a partir da qual podem ser feitas inferências sobre a diversidade biológica. A composição de cada coleção depende das localidades de coleta que os pesquisadores que nela trabalham (e trabalharam) costumam freqüentar, a freqüência com que vão a campo e das condições de acondicionamento dos espécimes. É comum que grandes instituições comprem coleções de instituições menores, de pesquisadores autônomos, ou mesmo de amadores. Cada coleção tem, assim, sua história, composta pelas histórias de cada coleção incorporada a ela e de cada um que trabalhou para formá-la. Não é muito incomum encontrarmos, por exemplo, espécimes que foram coletados em áreas que já não existem mais, seja devido à urbanização ou à destruição do habitat para dar lugar a plantações ou pastagens.
Existe ainda uma outra razão para qualificarmos como absurdo o que aconteceu à coleção do Butantan – a presença de tipos e o risco a que ficaram expostos com o incêndio. Tipo é o espécime que carrega o nome de uma dada espécie. Quando quem descreve uma espécie designa um único indivíduo para carregar o nome daquela espécie, ele é o holótipo. Mas há casos em que mais de um espécime carrega o nome da espécie, e nestes temos não um holótipo, mas dois ou mais parátipos. Mas o que significa exatamente carregar o nome? Imagine uma pesquisadora que, depois de muito trabalho, descobriu que uma espécie de cobra que coletou na caatinga é de fato desconhecida para a ciência. Ela possui somente um indivíduo, mas como se trata inequivocamente de uma espécie nova, ela a descreve com base neste espécime único mesmo. Agora, o espécime – neste caso o holótipo – precisa ser guardado em alguma coleção científica, para que esteja disponível para outros pesquisadores. A pesquisadora resolve depositá-lo no Butantan. Assim, se algum dia alguém coletar uma cobra que se suspeite pertencer à mesma espécie daquela, deve consultar a descrição da espécie e, se possível, o tipo, porque é ele que carrega o nome daquela espécie. Supondo que o tipo tivesse sido destruído pelo incêndio, não haveria com o que comparar o novo espécime, exceto pelas informações disponíveis na descrição da espécie, o que em muitos casos não é suficiente para uma identificação inequívoca da espécie.

Triagem de pequenos insetos

É por isso que, por mais que seja possível recompor de certa forma o acervo da coleção do Instituto Butantan, isto não vai ser suficiente. Com o incêndio perdemos parte de uma coleção que teve a característica ímpar de ter sido formada com a ajuda de anônimos que traziam serpentes e outros animais de todos os cantos do país.
É isto o que o ex-diretor do Butantan falhou em reconhecer em comparar a coleção do instituto a “uma bobagem medieval”, e o presidente do CRBio 7 não ficou muito longe ao tratar coletas científicas como “desnecessárias”. Que tenhamos tido algum sucesso em mostrar aos leitores que isto não é verdade!


[1] População é um grupo de indivíduos de uma espécie que vive em uma dada região geográfica.
[2] Acho que teríamos que colocar fotinhos deles
[3] Usadas nas coleções botânicas.
[4] Geralmente álcool a 70%, mas as concentrações podem variar; são também utilizados formaldeído e formalina para alguns grupos.

Fotos: Arquivo pessoal.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Museus de ciências, ensino e conhecimento científico

    Na edição desse mês da revista de divulgação científica Ciência Hoje (ed. 270) publicamos um texto na seção Ensaio discutindo a importância dos museus de ciência e tecnologia para a educação e cidadania de um povo, como essas instituições não devem ser vistas apenas como depósitos de coisas antigas e tentamos discutir como alguns conceitos tornarem-se mais claros e a desenvolver posicionamentos críticos, além de despertar o interesse dos futuros cientistas. Com o ocorrido no Instituto Butantan, pudemos perceber um pouco como a maioria das pessoas enxerga um museu e coleções biológicas, e acredito que parte do nosso trabalho seja esclarecer tais papéis para vislumbrarmos, no futuro, uma reação e engajamento diferentes da população diante do nosso patrimônio biológico, tão valioso quanto os que guardam os museus de história e artes.

   "O conhecimento científico não se resume ao contexto estritamente escolar. Essa afirmação – cada vez mais presente entre educadores em ciências – e a compreensão do que é ciência figuram como elementos importantes na construção da cidadania de um povo, que recebe informações por meio dos espaços escolares e dos veículos de comunicação, como jornais, revistas, televisão e internet. Além desses, existem outros espaços dedicados a essa finalidade? É nesse contexto que se situam os museus de ciência e tecnologia como promotores da ‘alfabetização’ científica. Esses museus têm sido objeto de diversas pesquisas, que abordam principalmente a importância de seu papel educacional e a compreensão dos processos de ensinoaprendizagem que ali potencialmente ocorrem.
   Uma pesquisa realizada pelo governo federal em 2004, com base em dados do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, indicou que a maioria dos estudantes brasileiros não lê livros, não frequenta teatros, cinemas ou museus e não percebe a existência de alternativas à escola, no que diz respeito a ciência e cultura. No mesmo ano, a pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, realizada pela organização não governamental Instituto Cidadania em 198 municípios constatou que, do total de jovens entrevistados (entre 15 e 24 anos), 39% não iam ao cinema há mais de um ano e grande parte deles nunca tinha ido a um teatro (69%), a um museu (69%), a um show de rock (59%), a uma apresentação de dança moderna (80%), a um concerto de música erudita (92%), ou a um espetáculo de balé clássico (94%)."


Sobre as autoras:

Rafaela Lopes Falaschi é bióloga e curiosa por natureza. Continue lendo...

Mariana Galera Soler é  bióloga, professora de Ciências e Biologia, no Ensino Fundamental II e Médio, na rede particular de ensino da cidade de São Paulo e interior. Alguém que ensina que aquele monte de nomes estranhos são apenas uma pequena parte do conhecimento da incrível diversidade biológica. Currículo Lattes.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Por aí...


Simpósio internacional "Museus, Biodiversidade e Sustentabilidade Ambiental"

De 8 a 10 de Junho de 2010 

Local: Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, RJ

Dia 11 de Junho - Visitas técnicas a museus como parte da programação do simpósio








Os desafios ambientais enfrentados atualmente pela humanidade exigem uma mudança radical nos paradigmas de produção, consumo e uso dos recursos naturais, uma dura tarefa que requer participação ativa de todos os cidadãos. Existe um movimento crescente de diversos setores da sociedade pela conscientizaçã o da população, e os museus - espaços de comunicação, divulgação e educação não-formal - não podem ficar alheios a esse movimento!

Por isso, o simpósio internacional "Museus, Biodiversidade e Sustentabilidade Ambiental", organizado pelo Museu da Vida (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz) e pelo Instituto Brasileiro de Museus/IBRAM, com apoio do CNPq, tem como principal objetivo convidar o setor museológico a refletir sobre a importância de incluir este debate nas agendas dos museus, por meio de exemplos de excelência e discussão de temas centrais, a fim de que esses espaços possam se articular internamente, entre os pares e com diversos atores externos, participando cada vez mais junto à sociedade na mitigação dos desafios ambientais.

O Simpósio reunirá palestrantes internacionais da França e Estados Unidos, bem como especialistas de diferentes estados brasileiros (Amapá, Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo), a fim de proporcionar um debate a partir de diferentes realidades, pontos de vista e abordagens.

Para se inscrever e obter informações detalhadas sobre programa e palestrantes, acesse: www.museologia. org.br/simposio. 

Profissionais pagam R$ 40,00 e Estudantes, R$ 20,00, de taxa de inscrição.

Reserve já as datas na sua agenda! O Museu Histórico Nacional fica na Praça Marechal Âncora, s/nº, Centro, Rio de Janeiro.

Contato: simposio.junho2010@ gmail.com

domingo, 9 de maio de 2010

Por aí...


8ª Semana de Museus

Programação completa
Tema: Museus para a Harmonia Social
Realização: Instituto Brasileiro de Museus (Ibram)
Local: todo o Brasil
Data: de 17 a 23 de maio de 2010
Informações: www1.museus.gov.br

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Museu de Zoologia da USP - 8ª semana de museus

Programação:
18/05/2010 - 15h às 17h
Local: Auditório
PALESTRA - A Inserção da Museologia Brasileira no Plano Internacional
Carlos Roberto Brandão - Presidente do ICOM-BR
22/05/2010 - 15h às 17h
Local: Auditório
MESA-REDONDA - Museus e Centros de Ciências - desafios comuns
Marcelo Firer - Diretor Museu Exploratório de Ciências da Unicamp
Maria Isabel Landim - Museu de Zoologia da USP
Avenida Nazaré, 481 - Ipiranga - São Paulo - Fone: 2065-8100

segunda-feira, 8 de março de 2010

A base da nossa Ciência


Por Luiz Fernando F. Gelin 


O primeiro passo para a sabedoria é conhecer as coisas por elas mesmas; essa noção consiste em ter a verdadeira ideia do objeto; objetos são distinguidos e conhecidos pela sua classificação metodológica e nomenclatura apropriada; dessa forma a Classificação e Nomenclatura será a base da nossa Ciência.
Carl von Linee, 1735


Capa do Systema Naturae (Carl von Linee, 1735)


        O ano de 2010 foi declarado pela Organização das Nações Unidas como ano internacional da Biodiversidade. Com isso, um dos principais objetivos da ONU é trazer à tona a importância da conservação da Biodiversidade. Mas como fazer isso sem conhecê-la?  O que conhecemos da biodiversidade?  Há quase 300 anos, Lineu sugeriu um modo de documentar a biodiversidade, a simples nomenclatura ajudaria a partir daí gerações e gerações de naturalistas na descrição e documentação das espécies de seres vivos.
 Durante os séculos XVIII, XIX e início do século XX, muitas expedições científicas foram realizadas. Naturalistas partiram pelo mundo e descreveram a maior parte de espécies que temos registro hoje. Atualmente, porém, profissionais que se dedicam a esse tipo de pesquisa são escassos. Mas, por quê? Já conhecemos a vida em toda sua extensão? Segundo o professor emérito de Harvard, Edward O. Wilson, não conhecemos sequer a ordem de grandeza do número de espécies que vivem na Terra. Em relação aos insetos, por exemplo, acredita-se que existam aproximadamente 1 milhão de espécies descritas, e estima-se um total entre 2 milhões e 30 milhões de espécies existentes. Ou seja, sendo muito otimista, 50% das espécies de insetos existentes foram descritas. Entretanto, sendo mais realista, entre 3% e 10% são conhecidas pela Ciência.
Com o avanço das Ciências tanto tecnológico como teórico, os pesquisadores deixaram de se preocupar com o básico.  A importância da taxonomia parece-me que foi esquecida pela maior parte da comunidade científica. Um dos principais argumentos é que a taxonomia não possui perguntas e hipóteses testáveis, o que a torna, sob o ponto de vista de alguns, desinteressante e menos importante que, por exemplo, estudos que envolvam ecologia experimental ou evolução molecular. Não quero tirar o mérito desses estudos, mas sim mostrar que a taxonomia merece credibilidade, ao menos, tanto quanto eles.
A taxonomia surgiu como a ciência que dá nome aos seres vivos. Apesar de ser tida como uma ciência puramente descritiva, a taxonomia tem suas hipóteses e metodologias adequadas para testá-las e vai muito além da descrição de espécies. Uma vez que se tem um objeto, é preciso compará-los com uma classe de objetos previamente identificados e descritos a fim de se confirmar a hipótese de que é a tal espécie. Portanto, a própria espécie é uma hipótese, cabe ao taxonomista comparar características e corroborar ou refutar a espécie, caso refute o caminho natural é descrevê-la como nova. Mas não para por aí, a taxonomia também está interessada em revelar as relações de parentesco entre essas espécies comparando caracteres. Dessa forma, juntando-as em grupos por suas semelhanças, e criando diferentes níveis hierárquicos.  Tanto esses grupos, quanto essas semelhanças são hipóteses a serem testadas. A simples descrição e comparação de espécies são o primeiro passo para o estudo das relações entre elas, e formam uma hipótese primária de parentesco, base para a construção de árvores da vida. Ainda que bem esclarecidos, muitos pesquisadores parecem não perceber que a taxonomia vai além da descrição. Por si só, o caráter descritivo já é importante, e é através da taxonomia que podemos nos referir a milhões de espécies já descritas, que sabemos onde estão e por que ali estão, que podemos explorar a evolução da vida. Isso faz dela uma ciência única e independente.
Agora, mais do que nunca, estamos vendo os resultados do esquecimento da mais antiga e fundamental das ciências. Os problemas com os quais nos deparamos hoje já foram alertados há 25 anos quando Wilson introduziu o termo “crise da biodiversidade” dizendo, em resumo, que a diversidade está sendo perdida antes que a conheçamos. De fato, muitas espécies foram e continuam sendo extintas sem terem sido descritas. Outra consequência dos problemas mencionados, ficou conhecida como “impedimento taxonômico”. Muitos cientistas se depararam com esse problema: estudar a biologia, comportamento, história natural de alguma espécie que carece de descrição. Milhões de espécies permanecem sem descrições.
Apesar de notáveis, os problemas que a falta da taxonomia trazem para a ciência parecem invisíveis aos olhos da comunidade científica. Com a falta de financiamento, pesquisadores são desestimulados a trabalhar em taxonomia, o que torna a carreira do taxonomista criticamente ameaçada de extinção. Essa extinção leva ao abandono de Museus de História Natural, Museus de Zoologia, Herbários e Jardins Botânicos e do acervo da vida já coletado. Estes centros possuem grande apelo estético que aflora nossa biofilia – sentimento intrínseco do ser humano pela natureza – e desempenham importante papel na educação e conscientização dos cidadãos de todas as gerações. Em um contexto de estudos científicos, os museus são espaços fundamentais para os estudos taxonômicos e funcionam como um arquivo de toda a biodiversidade conhecida. Para continuar mantendo seu papel, os museus precisam ter seus acervos bem conservados e atualizados. Cabe citar aqui a importância das revisões taxonômicas, através delas os dados depositados em museus, que não foram estudados ou que foram estudados há tempos, são trazidos à tona e organizados, revisados, comparados. A importância dessas revisões não está apenas relacionada à história natural das espécies ou grupos de espécies, mas também à história dos ambientes em que vivem (ou viveram) e até as mudanças geológicas e climáticas desses ambientes, pois além do ser coletado, as etiquetas trazem preciosas informações que nos levam a tais inferências. Sem a taxonomia deixamos de desvendar a vida.
É evidente o estado crítico em que esta ciência se encontra. Já é passada a hora de conscientizar novas gerações de cientistas e não podemos deixar de chamar a atenção de futuras gerações (não só de cientistas), pois quando a base da nossa ciência é ameaçada tudo que por ela é sustentado pode desabar. Já disse o taxonomista Quentin Wheeler “o custo de continuar a ignorar as necessidades da taxonomia é infinitamente maior do que o financiamento e a atenção que a taxonomia precisa nesse momento”.


 “Nossa geração é a primeira a realmente compreender o problema da crise da biodiversidade e a última com a oportunidade de explorar e documentar a diversidade de espécies do nosso planeta” (Wheeler, Raven & Wilson).


Para ler:

Diversidade da Vida, Edward O. Wilson, Cia das Letras, 1994.



Sobre o autor:

Luiz Fernando F. Gelin é formado em biologia pela Unesp, campus de São José do Rio Preto, onde conheceu  Lineu, Darwin, Wallace, Hennig e Wilson  além de outros naturalistas e acabou entrando no mundo da evolução, da taxonomia e dos insetos. Realizou seu mestrado no programa de Biologia Animal da mesma instituição, investigando as relações de parentesco entre as espécies de um gênero de vespas sociais (tambem conhecidas como marimbondos ou cabas). Algumas ferroadas depois, tornou-se aluno de doutorado e dá continuidade ao estudo da taxonomia e evolução, através da morfologia e dos genes, desses temidos insetos com comportamento intrigante. Lattes.